Artigos, Bispos › 09/04/2020

A derrota da morte

O homem não quer saber da morte. Todavia, nunca a morte esteve mais entranhada numa civilização como a nossa. Abrimos o jornal, ligamos a televisão, saímos pelas ruas das nossas cidades e tudo cheira a morte. Há regiões e situações em que a morte domina de maneira absoluta e o silêncio comemora a sua vitória. Nestes tempos difíceis que estamos vivendo, por causa desta pandemia presente no mundo, devem nos ensinar alguma coisa. Tudo mudaria se o homem tivesse a certeza de que as coisas continuam de algum modo “do outro lado”. Dizemos desejar a vida eterna, mas na realidade só aspiramos a continuar na atual. Outra vida além e maior aterra-nos, porque nos transcende.

Isto mesmo aconteceu aos discípulos de Jesus que o tinham seguido e acreditavam nele, com o coração, com fé. Ele era tudo para eles. A morte de Jesus era para eles tão definitiva como é para nós a do melhor amigo que levamos para ser sepultado. Na manhã de Páscoa, porém, Deus manifesta o primeiro sinal que a Ressurreição de Cristo pode operar.

Na manhã da Páscoa, uma mulher foi escolhida por Deus para proclamar ao mundo o primeiro anúncio de que a morte fora vencida. Diante do que viu, correu e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava. Contou-lhes alarmada que o Senhor desaparecera do sepulcro. Alertados por Maria Madalena, eles correm ao sepulcro e diante dos sinais da morte (o túmulo, as ataduras no chão, o sudário enrolado à parte…) descobrem a vitória da vida. Pedro apenas interpreta os sinais da morte. O outro discípulo viu e acreditou. Calam-se. Estão frente ao mistério e deixam-se penetrar por ele. Só agora descobrem que o triunfo pode vir através da morte e do sofrimento.

A atitude dos dois discípulos diante do sepulcro vazio repete-se ainda hoje. Há quem pense que a doação da própria vida é somente morte, renúncia, destruição de si mesmo. Outros, pelo contrário, compreendem que uma vida consagrada a Deus e aos irmãos, como fez Jesus, não termina com a morte, mas abre-se para a plenitude da vida em Deus.

Mais tarde, são os discípulos de Jesus que testemunham a sua ressurreição, porque estiveram com Ele, comeram e beberam com Ele, ouviram os seus ensinamentos.

E nós, como podemos ser testemunhas se não vimos nem ouvimos nada?

Poderemos ser testemunhas do Ressuscitado se fizermos a experiência da ressurreição através das nossas obras.

Pelo Batismo, nós passamos da morte à vida. Se pela nossa maneira de viver pudermos afirmar que a nossa vida mudou completamente e que abandonamos as obras de morte – os ódios, os rancores, as invejas, as injustiças, a maledicência, a violência, a vingança… – então, podemos também proclamar-nos testemunhas da Ressurreição. Ninguém poderá duvidar do nosso testemunho, pois estará cimentado em fatos que todos poderão verificar.

Diz-nos a 2ª Leitura de hoje (Colossenses 3,1-4) que nos devemos afeiçoar às coisas do alto e não às da terra. Embora nos ocupemos delas como os outros, devemos ter a firme convicção de que a plenitude da vida não pode ser alcançada aqui. As boas obras não podem faltar, pois são uma manifestação da vida nova e sinais da sua presença, tal como os frutos que podem aparecer e crescer numa árvore viva e viçosa.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen