A dúvida que salva
O Evangelho de Mateus (14, 22-36), proposto para este Domingo, nos apresenta uma cena inesquecível: Jesus caminhando sobre as águas e Pedro tentando imitá-lo. O episódio é marcado por medo, coragem e, sobretudo, pela dúvida. O Salmo 77 ecoa a voz de quem atravessa noites escuras e pergunta: “Será que o Senhor nos rejeitará para sempre?” (v. 8).
A barca, símbolo da Igreja, está em meio ao mar agitado. Os discípulos enfrentam o vento contrário e a escuridão da noite. É a imagem da vida cristã: frágil, cercada de incertezas, mas chamada a atravessar o mar da existência. Jesus, por sua vez, está no monte, em oração. Parece ausente, mas na verdade está junto do Pai, intercedendo. Essa distância traduz a experiência da Igreja após a Ressurreição: não vemos Jesus com os olhos, mas Ele permanece presente no pão, no amor fraterno e na força do Espírito.
Quando Jesus surge sobre as águas, os discípulos pensam que é um fantasma. Quantas vezes também nós reduzimos a presença de Deus a um rito vazio, sem força real! Paulo já advertia a comunidade de Corinto: celebrar a Ceia sem viver o amor fraterno é transformar o pão em ilusão. Mas Jesus responde: “Coragem! Sou Eu. Não tenham medo!” (Mt 14, 27). O “Eu sou” recorda o Deus do Êxodo, que abre o mar e liberta da escravidão. O que parecia fantasma é, na verdade, a realidade mais sólida: o amor de Deus que vence a morte.
Pedro ousa: “Senhor, se és Tu, manda que eu vá até Ti sobre as águas.” (v. 28). É o desejo profundo do ser humano: vencer o limite da morte. Enquanto olha para Jesus, Pedro caminha; quando olha para o vento, afunda. Essa é a parábola da nossa vida: se fixamos os olhos nas dificuldades, somos vencidos; se olhamos para o Senhor, realizamos o impossível.
Ao afundar, Pedro grita: “Senhor, salva-me!” (v. 30). Esse clamor é a fé mais radical: não a fé das certezas, mas a fé que nasce da necessidade de salvação. Até a falta de fé pode se tornar oração. Jesus estende a mão e o resgata, dizendo: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (v. 31). A frase revela que a fé não é posse absoluta, mas experiência. Não se trata de ter certezas, mas de confiar que Deus é fiel, mesmo quando nós vacilamos.
A dúvida, portanto, não é inimiga da fé. É parte do caminho. Quem nunca duvida, seja crente ou não-crente, fecha-se em suas próprias seguranças e não experimenta a verdadeira confiança em Deus. A dúvida abre espaço para o grito que salva.
No final, quando Jesus e Pedro entram na barca, o vento cessa e todos proclamam: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus.” (v. 33). A travessia se completa em Genesaré, onde as multidões reconhecem Jesus e recebem cura. A barca cumpre sua missão: atravessar a noite, enfrentar o mar e testemunhar que Cristo está vivo.
Assim, o Evangelho nos ensina que a fé não é ausência de dúvida, mas confiança na fidelidade de Deus. A noite precisa ser atravessada, o vento precisa ser enfrentado, e a dúvida precisa ser vivida. É nesse caminho que nasce a verdadeira confissão: Jesus é o Filho de Deus, presente para salvar e libertar.
Neste domingo, em que celebramos a Vocação à Vida Familiar e o Dia dos Pais, que esta Palavra inspire cada família a atravessar o mar da vida, lançando-se sempre na aventura da fé.
+ Dom Carlos Romulo
Bispo da Diocese de Montenegro