Artigos, Bispos › 10/09/2020

A grandeza do perdão

Nos dias de hoje confrontamo-nos com vários obstáculos que não conseguimos ultrapassar com facilidade. Um deles se refere à necessidade do perdão, para sermos cristãos autênticos. Não é fácil perdoar, esquecer as ofensas, amar quem nos ofendeu ou prejudicou. Talvez por isso, Jesus tenha insistido tanto no tema do perdão.

Recordemos as várias recomendações do Sermão da Montanha, e a súplica da oração do Pai Nosso (perdoai-nos, como nós perdoamos). É esta a mensagem que vamos ouvir neste Domingo, especialmente na conclusão do Evangelho (Mateus 18,21-35): “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

O sentido da parábola é muito profundo e comprometedor. O interesse de Jesus ao contá-la é destacar a enorme distância que existe entre o coração de Deus e o coração do homem, entre o perdão que recebemos de Deus e aquele que devemos oferecer aos demais.

Os dez mil talentos da Parábola eram uma soma imensa que correspondia a 200.000 anos de trabalho de um operário. Este número, realmente infinito, segundo o modo de falar e pensar do tempo de Jesus, destina-se a mostrar a imensidão da misericórdia de Deus.

Em contraste com esta bondade inesgotável, há, ao contrário, a mesquinhez do coração do homem, que não sabe perdoar as menores ofensas.

O ensinamento da parábola, portanto, é o seguinte: os cristãos são filhos de Deus. Também no que se refere ao perdão das ofensas devem assemelhar-se ao Pai que está nos céus. Devem ter um coração grande como o dele: devem manifestar o perdão por um amor sem limites.

Deus manifesta a sua misericórdia, realiza o seu perdão quando transforma o homem e o conduz à conversão, quando provoca uma mudança interior, quando o conduz ao amor efetivo e a atitudes dignas dos filhos de Deus.

Para nós, perdoar também quer dizer, sem dúvida, abrir o coração para acolher quem errou, isto é, não conservar rancor contra quem nos causou contrariedades, tendo também o compromisso de esclarecer o irmão sobre o erro que cometeu; isto é, ajudá-lo a recomeçar novamente a construção da sua vida.

Quem não tem a disposição para manter o coração aberto ao amor, poderá até ser um homem justo e honesto, mas com certeza não é um filho do “Pai que envia a chuva sobre os justos e os malvados” (Mateus 5, 45).

Então, o caminho a percorrer pelo cristão deve ser impregnado pelo espírito novo trazido por Cristo, que o leva a uma atitude positiva: fazer bem a quem o ofendeu, pagar o mal com o bem.

Ser habitualmente fiel a esta exigência evangélica supõe verdadeiro heroísmo. Como alguém disse: pecar é humano, perdoar é divino.

Ao ouvirmos hoje a Palavra de Deus, talvez pensemos que estamos em paz com todos, que não temos inimigos, que não desejamos mal a ninguém. Mas para o nosso perdão ser perfeito, devemos esquecer também as pequenas ofensas, as indelicadezas, as faltas de atenção.

Se guardamos um pouco de frieza a respeito de alguém, se evitamos tal pessoa, há ainda algo a fazer no caminho da caridade e do perdão.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen