Artigos, Bispos › 07/04/2020

A Semana Santa diferente

Vivemos o Domingo da Paixão do Senhor, Domingo de Ramos. Foi diferente dos outros anos! Não estava nosso povo com os ramos nas mãos, dentro da Igreja. Todas as paróquias celebraram sem povo. E o nosso povo estava muito ligado, seja pelas transmissões via facebook, rádios e, também, pelos canais católicos de televisão. A Semana que estamos vivendo nos pede que fortaleçamos e firmemos a nossa fé! Não temos os templos abertos e acolhendo as pessoas, com o abraço dos amigos da comunidade, mas temos o nosso povo presente diante de Jesus Cristo e da sua Igreja, à qual somos um único Corpo e Povo pelo nosso batismo. Nosso povo não pode se encontrar, rezar e cantar juntos, demonstrar visivelmente a assembleia santa que somos. Também não irá comungar. Nosso povo não poderá, com a comunidade reunida, chegar no dia da Vigília Pascal e reafirmar, com convicção, “eu creio”, e renovar o batismo. Sim, podemos nos confessar, como extraordinariamente nos concedeu licença nosso Papa Francisco, e receber, como ele disse “o abraço misericordioso do Pai”. Quantos sinais desta presença, sobretudo pelos ramos que foram preparados pelas nossas famílias e afixados nas portas. Tenho certeza que este tempo está produzindo o sentido do “como faz falta” a comunidade, o grupo de jovens, a catequese, o grupo de casais e, assim, tantos outros.  Quero destacar ainda três pontos  para vivermos com intensidade a Páscoa do Senhor.

Embora estejamos em quarentena, no isolamento social, não esqueçamos de olhar ao nosso redor. Temos muitos que estão sofrendo pela situação que estamos vivendo. Nas nossas Paróquias e nos municípios há muitas iniciativas que estão sendo realizadas. Vamos nos unir. Se conseguirmos ajudar alguém, neste momento em que muitos não têm sua renda diária/semanal, nossa Páscoa terá novo sentido. “Eu estive com fome e me destes de comer”(Mt 25,35), disse Jesus.

O silêncio e o recolhimento são ambientes favoráveis para vivermos a espiritualidade desta semana. A Palavra de Deus nos fala muito. Meditemos com a Leitura Orante os textos do Servo Sofredor, do Profeta Isaías (Is 42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12), presentes nas leituras desta semana. Eles são a imagem bíblica mais fiel do Servo Sofredor que foi Jesus Cristo. Ele, fiel ao Pai e, unicamente, movido por amor à humanidade, é crucificado e ressuscita para a vida eterna e para nos dar a vida plena. Continuemos a acompanhar as orações, as celebrações pelos meios de comunicação.

Também é tempo de maior convivência. Oportunidade para os casais conversarem mais, estarem juntos. Tempo para os pais estarem mais com os filhos e ajudá-los nos valores humanos, da convivência na casa, ajudando nos pequenos trabalhos domésticos. Os ritos cotidianos nos educam, sabemos disso. Mas, também, pelo fato que os filhos, ao verem os pais e avós acompanhando as celebrações ajuda-os a alimentarem e crescerem na fé.

Enfim, nossa “grande Semana”, como é chamada, será diferente. Temos conosco uma grande preocupação pela saúde de todo nosso povo e, também, pelas condições econômicas dos que não conseguem trabalhar e perderam sua renda. Esperamos que não seja muito longa. Mas nunca nos deixemos tomar pelo medo. Haveremos de superar, juntos, este momento. Deus está conosco sempre: “Embora eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, pois junto a mim estás” (Sl 23,4). Confiemo-nos à Nossa Senhora de Guadalupe, que no dia de Páscoa, dia 12, faremos com toda a América Latina, a consagração a ela. As palavras consoladoras de Maria de Guadalupe ao índio São João Diego, hoje, ressoam nos nossos ouvidos: “Meu filho, nada te aflija. Não estou eu aqui que sou tua mãe? Não estás tu sob o meu amparo?”

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta