Artigos, ATUALIDADES › 26/05/2020

A solidão sempre nos encontra

A solidão sempre nos encontra. A experimentamos quando silenciamos os ruídos ao nosso redor, quando rompemos relacionamentos, quando nos retiramos de cena frustrados com expectativas não correspondidas sobre qualquer anseio, quando precisamos cumprir com uma necessidade pessoal e intransferível como estudar para uma prova, ou se recolher em oração. Ela nos encontra quando deitamos para descansar e se mostra uma eloquente faladeira em nossa mente e nos tira o sono, ela pode ser nossa pior companhia e sua ansiedade que extrapola a si mesma. Ela estará, no outro dia quando abrimos os olhos, por que a consciência de sermos sós não significa não estar em relação com as pessoas e o meio que nos cerca. Somos sós por que a solidão é o que instiga nosso eu a nos dar respostas importantes para dizer quem somos. A verdade é que a solidão não suporta estar só, e por isso fica personificando companhias capazes de lhe fazer sorrir. Personificar a solidão, ela é minha, é tua, e cada um tem a sua. Dar-se conta que, ao mesmo tempo que somos sozinhos em busca do não ser, é tomar consciência de que uma vida autêntica não é a que se fecha mas a que se abre para dar a solidão uma esperança, uma fé, e um sentido. A esperança é a virtude de quem sabe o que pode esperar por que encontrou algo digno de fé que cumpre com o que espera, a vida é uma esperança. É verdade que a transitoriedade do mundo nem sempre cumpre nossas esperanças, mas otimista que é, ela sempre quer crer que vale a pena não desistir e se arrisca na fé. A fé já é mais racionalmente concreta, para ter fé, é preciso que exista algo digno dela, fé não é crença fechada, mas aberta e para fora.

A conversa do “acredite em si mesmo” só é possível se esse si mesmo for sólido na potencialidade de realizar a missão que se propõe, se não for, é só esperança, ou devaneio. Fé é crer no que nos constitui como seres: Deus e nossas experiências reais que imprimiram conteúdo as nossas inconsistências, advindas por certo, da consequência de estarmos sujeitos e objetificados a ter nossa solidão invadida.  É no caminho da solidão, que solitários, vamos dando forma a nossa identidade; não estou de modo algum dizendo que estamos sozinhos o tempo todo, mas sim que dar sentido a vida é uma tarefa intransferível e por isso, solitária. E que esse caminho precisa ser de solidão, por que só ela nos dá o silêncio suficiente para ouvir as questões que verdadeiramente importam: Quem somos? De onde viemos? Como devemos nos relacionar? E para onde vamos? Se não formos capazes de pensar sobre a existência, já teremos nascidos póstumos. Então permita que eu lhe convide a abraçar a solidão e perguntar o que ela tem a ensinar. E jamais acredite em si mesmo se não estiver preparado para investir em saber quem és. Às vezes precisamos deixar de ser muitas coisas para sermos dignos de fé.

Um amigo traiçoeiro da solidão é o medo. Temos, em grande parte, medo de ficarmos sozinhos, seja por questão se segurança física pessoal, seja por necessidade de compartilhar sentimentos, seja por receio de não gostarmos muito do que se pode descobrir quando se mergulha muito dentro de si, e então, em nosso tempo mais do que nunca nos entupimos de companhias frívolas, medíocres, passageiras e por isso mesmo, prazerosas. Não estou dando adjetivos morais a ninguém, estou falando da qualidade das coisas com as quais preenchemos nosso tempo para evitar que a solidão seja nossa companhia. É estranha a ideia de solidão como companhia agradável. Normalmente a ideia de solidão vem hoje acompanhada da depressão, da fragilidade, da tristeza, do isolamento. Também isso é verdade, há uma solidão que nos mata e tira o gosto pela vida, mas há a ausência da solidão que não nos deixa espaço para o descanso, a contemplação, a transcendência, o pensar e o equilibrar dos sentimentos. O que não precisamos é, por medo, nos encher de quinquilharias e viver uma vida vazia de sentido, por que é justamente essa ausência de sentido, a que transforma a solidão na confirmação dos nossos medos.

Achamos que tudo tem que ter um sentido e buscamos respostas para que sempre sejamos felizes nas nossas escolhas. E isso é um engano cruel e muito sedutor. Na vida não se trata de encontrar sentido para tudo que nos ocorre e acontece com o mundo, mas de saber escolher as perguntas que merecem respostas. Também não se trata de buscar em tudo a felicidade, pois inevitavelmente haverá dias em que não seremos felizes, se nossa ideia de felicidade for apenas a satisfação do nosso humor e dos nossos desejos. Podemos desejar tudo, mas jamais desfrutaremos tudo, e podemos invariavelmente errar nas escolhas que fazemos ou por termos cedidos quando nos achamos escolhidos, e aprender como erros não é nem de longe algo que satisfaça nosso humor ou desejo. É um ferimento ter que se erguer depois que caímos, e quando a ideia de felicidade está em não errar nunca e ter prazer em tudo, tal evento se torna uma tortura que pavimenta o caminho até a tristeza e a dor de existir. O caminho para o sofrimento é não saber significar os eventos que se chocam com nossos planos e lhes dar o devido lugar entre o que é útil, o que passageiro e o que é vital.

Mas, o que de fato, é vital, o que é útil e o que é passageiro? Se há uma época em que estas distinções se tornaram relativas é a nossa. Vamos pensar o que é vital como sendo o que não se vive sem: saúde emocional, biológica e espiritual, família, conhecimento e trabalho. O que é útil: ter bens de consumo duráveis, acesso a bons meios de transporte e comunicação, e qualquer coisa que possa ser necessário para viver ou fazer algo, mas que não se morreria sem. O que é passageiro? É o que experimentamos de passagem e nos agrada, uma viagem, uma festa, uma boa expressão social no mundo virtual, alguma vaidade, qualquer prazer… O fato é que não dimensionar as coisas entre essas realidades tem sido a razão de tanta infelicidade, e tudo do que estão ai citado são meios para uma vida boa e feliz.

Procurar respostas que digam como receita de bolo como se fabrica a felicidade não é garantia que a massa não desande. E nem de longe estas linhas foram feitas para dar uma formula de felicidade. Foram, antes, produto de uma inquietação com a infeliz existência humana que não sabe para onde vai nos caminhos que construiu. Só diria: viva pelo que é vital e de vez em quando limpe o resto sem medo de jogar fora o que não funciona mais, ou de passar o pano e tirar o pó da capacidade de pensar em por que está a humanidade tão infeliz. Por que mesmo cheios de companhias, não nos satisfazemos, nos sentimos sós e tememos tanto a solidão, sem compreende-la?

Daniel Chagas – Seminarista da Teologia de Cruz Alta