Artigos, Bispos › 23/09/2019

A urgência pelo cuidado e proteção da vida

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A prática do suicídio levanta questões infinitas. Possuímos contribuições de várias ciências que se ocupam com o tema. Contudo uma pergunta permanece: por quê?

É difícil encontrar respostas satisfatórias diante da decisão de alguém de tirar a própria vida. Trata-se de um ato abrupto, chocante e ambíguo. Além do mais, esse é um assunto complexo, delicado e cercado de tabus.

Que fatores levam pessoas a cometer suicídio? São variados os fatores a serem considerados: genéticos, familiares, ambientais, socioculturais, existenciais, clínicos. Por vezes, pode estar presente o desejo da pessoa de chamar a atenção sobre si ou sobre os problemas que vive; pode ser expressão do desejo de ser ouvida e ajudada; pressão social por produtividade e máxima eficiência também influenciam; segregação ou isolamento social, formas de discriminação, doenças ou deficiências físicas, a morte de um familiar ou pessoa amada, dificuldades de trabalho e/ou financeiras podem induzir à prática do suicídio.

Em tempos de crise política, econômica, social e religiosa, o suicídio ocupa a cena do drama humano. Ele é certamente algo que faz parte da existência humana. Todo ser humano, em um ou em outro tempo da vida, desenvolve formas de sofrimento psíquico. Contudo, diante das incertezas frente ao futuro, a celeridade do tempo, o consumismo exacerbado, o impor-se do esteticismo ou narcisismo, o crescimento do número de relações interpessoais inconsistentes etc. constata-se o aumento dos casos de suicídio.

Detectar um possível suicida, saber aproximar-se, ouvir com delicadeza, cortesia e compreensão, e empenhar-se por buscar auxílio é expressão de solidariedade e senso de corresponsabilidade social diante desse drama que atinge não poucas pessoas.

A crença religiosa e a prática da fé influenciam na estabilidade emocional, na redução da tensão e ansiedade, na modificação do comportamento, na promoção de bem-estar interior e no modo como pessoas lidam com situações difíceis da existência.

O cristão é desafiado a testemunhar a fé, a esperança e a caridade, empenhando-se também na tarefa de proteger, cuidar e promover a vida, especialmente quando encontra alguém que perdeu a vontade de viver, pois a vida humana é graça, e, por isso, deve ser dignificada.