Artigos, Bispos › 05/08/2020

Ainda é preciso o sacramento do matrimônio?

Em nosso Ano Vocacional Diocesano, quantas vezes, os pais, que têm uma formação cristã e foram educados em outra época, ficam perplexos quando seus filhos escolhem não realizar o sacramento do matrimônio. O que vai mudar?, dizem. Não é suficiente que nos amemos e sejamos felizes? Não é suficiente somente uma bênção?

Nossa época tem seu modo próprio dos jovens viverem, com seu jeito próprio, nem melhor nem pior que outros momentos. Há dificuldades para obterem os recursos para o que é necessário para iniciar uma vida a dois: casa, carro, estudo, estabilidade profissional… Também, a dificuldade de esperar e amadurecer. Tudo tem que ser logo. Coloca-se na decisão a questão da fidelidade e durabilidade do pacto matrimonial. Vivemos o tempo em que a possibilidade da infidelidade está não somente na vida matrimonial, mas econômica, política e, também, religiosa. Porém, a causa principal é a deficiência de um caminho de iniciação à vida cristã. Dito de outro modo, na sociedade das opções, ser cristão seguidor de Jesus Cristo, católico, é uma opção de vida, que envolve a vida inteira e todo o tempo. Sendo assim, a preparação para o casamento pede um tempo de conhecimento mútuo e, também, de aprofundamento do significado do sacramento.

“O matrimônio cristão, reflexo da união entre Cristo e a sua Igreja, realiza-se plenamente na união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e de livre fidelidade, se pertencem até a morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para constituírem como igreja doméstica e serem fermento de vida nova para a sociedade” (AmorisLaetitia, n.292). Este é o modo como a fé cristã compreende a realidade familiar. Aqui está o ideal. Está fundada no amor humano, que se entrega pelo bem do outro, e abençoado pelo amor divino. Ele permanece sempre válido, pois tem seu fundamento numa visão humana integral e na fé que parte da revelação cristã. Então, a diferença essencial é a questão de uma fé madura, que foi sendo trabalhada na vida da pessoa e que compreende que o casamento não é somente um pacto humano, mas que o amor de Deus prepara e acompanha a vida em todos os momentos. A celebração do sacramento é fruto de um aprofundado discernimento. A graça do sacramento é como um poço de água, na qual devem sempre beber, para se renovar no cotidiano do casal e da família. A relação horizontal, do casal, encontra sentido e bênção na relação vertical, em Deus, que ama e abençoa. De fato, é uma questão de fé madura, clara e verdadeira. Tanto que uma das obrigações dos que celebram o matrimônio é a consciência das propriedades essenciais do sacramento: a unidade e a indissolubilidade.

Alguns matrimônios celebrados como sacramento, na realidade pouco têm de religioso, pois, de fato, criaram-se algumas convenções sociais economicamente muito caras, impossíveis para muitos jovens. Estas celebrações são válidas, se fizerem um caminho anterior que culmina na celebração. Porém, cada vez mais, nota-se a pouca importância para este sacramento, que diminui em todas as paróquias. É um sinal claro da crescente secularização. As catequistas, os padres, os responsáveis adultos dos jovens e os guias espirituais são chamados a ajudarem neste momento. Uma das maneiras para resolver esta questão é que cada paróquia deve organizar, todos os anos, celebrações praticamente sem custos para o matrimônio dos seus batizados, que antes devem ser preparados. Talvez tenhamos, no futuro, menos matrimônios, mas estes devem estar bem preparados e conscientes.

Parabéns aos nossos queridos pais, vivos ou falecidos, pelo vosso dia! Obrigado por tudo o que foram e são por nossa família.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta