Aparecida: a fé que ensina a amar o Brasil

A imagem de Aparecida nasceu das águas de um rio. Pequena, escura, quebrada e reencontrada em duas partes, tornou-se sinal de uma presença materna no coração do Brasil. Talvez esteja justamente aí a força de sua mensagem para nosso tempo: Deus não abandona aquilo que a história parece fragmentar;      Ele pode reunir, restaurar e fazer renascer a esperança. Das águas do Paraíba surgiu uma imagem recomposta; ao redor dela, pouco a pouco, reuniu-se um povo. Aparecida tornou-se em espécie de parábola do Brasil, assim, mais do que um santuário: tornou-se uma imagem viva de um povo que, em meio às suas feridas e contradições, continua buscando unidade, consolo e esperança.

Por isso, celebrar Nossa Senhora Aparecida é também perguntar pelo nosso compromisso com o Brasil. Amar a pátria não significa fechar os olhos para suas feridas nem transformar a fé em instrumento de disputas ideológicas. O amor verdadeiro é mais exigente, não é cego nem indiferente: ele reconhece as feridas porque deseja curá-las. Ama-se o Brasil quando se deseja que nenhuma criança tenha seu futuro roubado; quando o idoso é respeitado; quando o pobre encontra oportunidades e dignidade; quando a vida é protegida; quando a justiça não escolhe a quem servir; quando a política recupera sua vocação para o bem comum; quando diferenças legítimas não transformam brasileiros em inimigos.

Há algo particularmente eloquente na pequena imagem encontrada pelos pescadores: ela não veio do palácio, mas das águas; não apareceu aos poderosos, mas nas mãos de trabalhadores. Isso impede que a devoção a Aparecida se torne triunfalista. A Padroeira do Brasil permanece próxima do povo simples, das famílias, dos trabalhadores, dos peregrinos que carregam suas dores e agradecimentos. Seu manto parece reunir um país imenso, diverso, tantas vezes contraditório, lembrando-nos de que nenhuma região, classe social ou grupo pode reivindicar sozinho o direito de representar o Brasil inteiro.

Aparecida também nos ensina uma forma cristã de reconstruir. A imagem foi encontrada partida: primeiro o corpo, depois a cabeça. As partes foram reunidas. Também nossa sociedade experimenta fraturas: discursos agressivos, desconfiança, desigualdades, intolerâncias e dificuldade de escutar quem pensa diferente. Diante disso, o cristão não pode aumentar as rachaduras. Há uma responsabilidade espiritual em reconstruir vínculos. A fé autêntica não alimenta divisões; ela nos chama a ser artesãos da comunhão, capazes de restaurar pontes onde outros levantam muros. Quem se ajoelha diante da mesma Mãe precisa aprender a reconhecer no outro um irmão.

Maria é mestra dessa cidadania porque é, antes de tudo, discípula. Ela concebe Cristo pela fé e oferece sua existência ao projeto de Deus. Sua presença não produz barulho; produz disponibilidade: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). E, no Magnificat, sua espiritualidade se torna profundamente histórica: Deus olha os humildes, derruba falsas grandezas, sacia os famintos e permanece fiel à misericórdia. A oração de Maria não a distancia da realidade; ensina-a a enxergá-la segundo Deus.

É essa a graça que o Brasil precisa pedir aos pés de Aparecida: um patriotismo sem idolatria, uma cidadania sem ódio e uma fé sem indiferença. Não basta pedir que Nossa Senhora proteja o Brasil. É preciso perguntar o que estamos fazendo com o Brasil que colocamos sob sua proteção.

A devoção mariana, quando é verdadeiramente cristã, sempre nos conduz a Cristo e à conversão do coração. E talvez uma das conversões mais urgentes do nosso tempo seja reaprender a cuidar daquilo que nos une, sem negar nossas diferenças; buscar a justiça sem abandonar a caridade; defender convicções sem ferir a dignidade de ninguém.

Sob o olhar materno de Nossa Senhora Aparecida, somos chamados a compreender que amar o Brasil é também assumir responsabilidade por ele. Um país não se reconstrói pelo desprezo, pela indiferença ou pela divisão, mas pela justiça, pela fraternidade, pelo cuidado com os mais frágeis e pela esperança que nasce do Evangelho.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB