Artigos, Bispos › 12/08/2020

Apontar para Deus

No Ano Vocacional Diocesano, a celebração do dia da vida consagrada ou dos religiosos, assume lugar especial. Nossa Igreja Particular se alegra com a presença e a missão desta vocação junto com nosso povo. O Concílio Vaticano II nos recorda que “a profissão dos conselhos evangélicos se apresenta como um sinal que pode e deve atrair eficazmente todos os membros da Igreja para o cumprimento dedicado dos deveres impostos pela vocação cristã” (LG 44). Eles, os religiosos, são chamados a “manifestar sempre melhor Cristo tanto aos fiéis como aos infiéis” (LG 46). Com o específico do carisma de cada ordem ou congregação, no entanto, o mundo de hoje pede da vida consagrada que seja perita na experiência de quem conhece o caminho para Deus. Isto porque trilhou o caminho para uma consagração da vida, na pobreza, castidade e obediência. Tendo passado por este caminho, agora pode apontar para o divino, ajudando os outros a reconhecerem o desejo espiritual enraizado em todo vivente. Em outras palavras, a missão é apontar para Deus e ajudar os homens e mulheres do nosso tempo nesta missão.

O padre Amedeo Cencini, assim expressou o motivo pelo qual nasceu a vida consagrada: “para dizer que no coração do ser humano, qualquer ser humano, há este irreprimível desejo-expectativa de ver o rosto divino, de escutar a sua Palavra, a única que fala da vida eterna; de experimentar o seu amor, o único que pode matar totalmente a sede infinita de amor do coração humano; de gozar daquela felicidade plena e estável que pode ser dada e garantida apenas por Deus, aquele Deus que não quer soldadinhos obedientes, mas filhos felizes” (Abraçar o futuro com esperança, p. 43). De fato, qual a missão da vida consagrada senão de revelar aos seres humanos este desejo de Deus e torná-lo conhecido, acompanhando o seu caminhar. Sabem ver a Deus, com os olhos da fé, num mundo sem Deus. Descobrir os sinais de Deus na nossa história.

O que constitui o carisma de cada comunidade religiosa sempre terá a alegria do anúncio do evangelho, como nos recordou recentemente nosso Papa Francisco, na carta Evangelli Gaudium. A alegria é a tônica de todo o evangelizador e, mais ainda, do consagrado e consagrada. Sua missão é semear. A alegria consiste, não somente em ter recebido o evangelho, mas de partilhá-lo com os outros. Existe um belo no semear, cheio de esperança. É belo transmitir aquela novidade assombrosa que é a boa nova do amor misericordioso de Deus. O importante é a certeza que o Evangelho foi anunciado e a Palavra tem uma força em si mesma. Dará fruto no seu tempo. A missão é testemunhar com a vida, sendo sinal visível desta nossa vocação para Deus, e anunciar com coragem a Palavra. Para que cumpra sua finalidade, o religioso é chamado a aprender a falar a linguagem de hoje, para que possa abrir um caminho no coração de quem a escuta. Claro, será porque a vida consagrada é chamada ao seguimento de Cristo, o Crucificado ressuscitado. “Assumir, concretamente, o seu estilo de vida, adotar as suas atitudes interiores, deixar-se invadir pelo seu espírito, assimilar a sua lógica surpreendente e a sua escala de valores, compartilhar os seus riscos e as suas esperanças” (Ano da Vida Consagrada, Alegrai-vos, p. 21). Na concretude do cotidiano, soma-se a intensa vida de oração, a missão segundo o carisma e a comunidade de vida.

Parabenizo os nossos religiosos e religiosas, pelo seu dia. Todos nós, povo de Deus, oramos a Deus para que surjam vocações que se encantem por este caminho único da Igreja: apontar para Deus.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta