Artigos, Bispos › 13/10/2020

Caminho para o encontro com Deus

Santa Teresa de Ávila (1515 a 1582) é nossa grande mestra da oração. Celebrada no dia 15 de outubro, seus escritos são uma escola que vão além do tempo. Diz: “para mim, a oração mental não é senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós, com quem sabemos que nos ama” (Santa Teresa, Vida, 8.2). A vida espiritual é o diferencial para o sentido do viver e a presença no mundo. Para que esta espiritualidade seja cristã, é preciso um caminho de amadurecimento para identificar nossa vida com a de Jesus Cristo. Para isto, é fundamental a disciplina da oração. Sem oração, não conhecemos a Deus e não nos deixamos conhecer por ele. Em que consiste esta oração como caminho para a vida em Deus e como Deus?

Primeiro, devemos dizer que nem todas as celebrações e orações que fazemos são, de fato, esta experiência de comunhão com Deus. Muitas vezes nossas orações são ritos que não conseguimos nos deixar conduzir por eles, ou palavras que não expressam a vida, ou muitos discursos que não conduzem ao encontro com Deus e nem Deus conosco, só para citar alguns casos. Sempre, a oração inicia com o abraço do encontro, do colocar-se, como pessoa e comunidade, diante do rosto daquele que nos ama e quer se encontrar conosco. Claro, faz-se necessário uma disposição da pessoa para tal, um silêncio interior, a consciência da respiração, um lugar tranquilo e a abertura para escutar mais do que falar.

Quando o cristão se habitua a estar, em silêncio, diante do olhar do Senhor, pela sua Palavra, no silêncio do sacrário ou diante de sua cruz, vai deixando se transformar pela ação do Espírito Santo. Orar é uma ação que não tem nenhum sentido para o mundo consumista que vivemos. Mas é a condição indispensável para, a cada dia de nossa vida, sermos o que somos. Olhamos para Cristo e nos descobrimos “olhados”. Como o Filho diante do Pai, nós, também, dizemos “Pai” e nos sentimos seus “filhos”. E qual a atitude fundamental deste colocar-se diante de Deus? A partilha da intimidade do coração. “O homem espiritual trata com Deus como um amigo íntimo: de coração a coração” (São Clemente).

Então, toda a oração cristã, seja qual for, é um sair de si, do nosso egoísmo, e encontrar-se com um Outro, com Deus. Ou melhor, permitir que Ele venha até nós, nos alcance com seu amor. Aqui temos um perigo do nosso tempo: orar para um cristão não é unicamente uma introspecção, mas um encontro. Mesmo quando Santo Agostinho fala que é preciso entrar em si, pois “Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos”, trata-se de “alguém” que habita em nós. Esta perspectiva nos ajuda a viver a partir de Jesus Cristo. Ele é a referência absoluta, sempre. A amizade com Ele é vivida sempre, em qualquer lugar e momento. Não ocupa espaço, mas o coração. Por isso, do mesmo modo como é belo encontrar-se com os amigos, é muito belo também o encontro com o amigo Jesus Cristo. Não pode um cristão viver sem oração. É como respirar. Assim, a relação com Deus é a vida que respiramos.

Nossa vida cristã, vivida na intimidade do encontro pessoal cotidiano e na caridade da vida comunitária, sempre terá esta marca. Somos de Deus e, formados com Ele, amamos os irmãos. Nossa oração não pode se resumir em “pedidos” e “agradecimentos”. Sabemos o evangelho. Já estudamos os textos bíblicos. Então, já rezamos? Já aconteceu em nós esta conversão ao seu modo de ser?  Pode ser que sim, mas talvez ainda não. “Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará” (Mt 6,6).

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta