Com Maria e José no caminho pascal
Durante a Quaresma, a liturgia nos conduz ao mistério pascal de Cristo, mas também nos coloca na companhia de duas figuras decisivas da história da salvação: São José, celebrado em 19 de março, e a Anunciação do Senhor, em 25 de março. Essas festas, situadas no tempo quaresmal, remetem aos relatos da infância de Jesus e iluminam o caminho espiritual do discípulo que deseja acolher a vontade de Deus mesmo em meio às incertezas da vida.
São José: o homem da escuta e da fidelidade
São José aparece nos Evangelhos da infância, sobretudo em Mateus e Lucas. Em Mateus ele é chamado de “justo” (Mt 1,19), uma expressão que, na tradição bíblica, indica alguém que vive em profunda sintonia com Deus. José não é apresentado como protagonista de discursos ou gestos extraordinários, mas como homem de escuta, capaz de discernir a ação de Deus nos acontecimentos. Diante da gravidez inesperada de Maria, sua vida é atravessada por perplexidade e sofrimento. Contudo, no silêncio da noite, Deus lhe fala em sonho e o convida a acolher Maria e o Filho que nela se gera. José obedece com prontidão e confiança, sem hesitar.
Nesse gesto silencioso manifesta-se sua grandeza espiritual. Ele assume a paternidade legal de Jesus, protege a Sagrada Família na fuga para o Egito e conduz o lar de Nazaré com fidelidade. Não transmite a vida biológica ao Filho de Deus, mas entrega-se totalmente ao serviço do plano divino. São José revela que a verdadeira justiça consiste em confiar em Deus, mesmo quando os caminhos parecem obscuros. Como recorda São João Crisóstomo: “José mostrou-se grande não por aquilo que disse, mas pela prontidão com que cumpriu a vontade de Deus”.
Maria: a mulher da plena disponibilidade e fé
Se José é o guardião fiel do mistério, Maria é a mulher da plena disponibilidade. No relato da Anunciação (Lc 1,26-38), o anjo Gabriel revela-lhe que ela foi escolhida para ser a mãe do Salvador. Maria escuta, pergunta e discerne. Sua pergunta — “Como acontecerá isso?” — não é incredulidade, mas busca sincera de compreensão diante do mistério. A resposta do anjo conduz ao coração da fé: “Nada é impossível para Deus”.
O “sim” de Maria — “Faça-se em mim segundo a tua palavra” — é uma adesão total ao projeto divino. Trata-se de uma entrega que envolve toda a sua existência. Como afirma Santo Irineu, “pela sua obediência, Maria tornou-se causa de salvação para si e para todo o gênero humano”. Nela, a humanidade aprende a acolher a iniciativa de Deus com confiança.
A escolha do dia 25 de março para celebrar a Anunciação está ligada à festa do Natal, nove meses depois. Na tradição antiga, porém, essa data era associada também ao início da criação. Assim, a encarnação do Verbo inaugura simbolicamente um mundo novo.
Conclusão: o caminho de fé de Maria e José
Contemplando Maria e José no caminho quaresmal, aprendemos que a Páscoa começa com a disponibilidade de acolher Deus em nossa história. Eles nos ensinam que a fé nasce da escuta, amadurece na confiança e se realiza no serviço humilde ao plano de Deus.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo Metropolitano de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB