Artigos, Bispos › 22/06/2021

Com os salmos, rezamos a Deus

Os salmos rezam e nos ensinam a orar. Temos cento e cinquenta salmos para nos voltarmos a Deus e, a partir dele, olharmos tudo o que nos cerca. Ou melhor, olharmos a vida e, nela, vermos o rosto de Deus. Por isso, nos salmos encontramos todas as alegrias, tristezas, dúvidas, esperanças e amarguras. São sempre expressões de uma vida humana, cheia de sentimentos, que é chamada a se voltar para Deus. Não são somente algumas orações que alguém escreveu, não são! São todas orações de alguém ou um povo que caminha, que quer ouvir a voz de Deus, que sobe a Jerusalém, que põe sua confiança nele, que confia nele como Criador e Providente. Cada salmo é um imenso louvor a Deus pela sua confiança nele. Todos os salmos são muito benéficos. Um ponto de partida poderia ser o salmo: “Tu és, Senhor, o meu Deus. Desde a aurora ansioso vos busco. Minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!” (Sl 62,1).

O mais belo das orações dos salmos são de que sempre são uma imagem da vida do cristão que se volta para Deus e que tem Deus que se volta a Ele. Assim “a dor torna-se relação” (Francisco, Audiência, 14/10/2020). Todas as dores e sofrimentos humanos, todas, são sempre minhas dores. Não são somente uma dor universal. Na minha dor, Deus ouve, Deus tem um coração bom. Por isso, nas procissões com a Virgem Maria, são tantos os sofrimentos que Deus ouve de todos. “Sou as ‘minhas’ lágrimas que jamais alguém derramou antes de mim. Sim, muitos choraram, muitos. Mas, as ‘minhas’ lágrimas são as minhas, o ‘meu’ sofrimento é meu, a minha dor é minha” (Francisco, Audiência, 14/10/2020). Diante de Deus, nosso coração é único; ele se volta para Deus e Deus muitas vezes ouve. Quantas vezes, porém, não ouve o ser humano: é diante da morte! Mas, diante da morte, quando nos voltamos a ele, é porque já o reconhecemos como nosso Deus. Uma situação bem difícil para o ser humano é chorar sem ter ninguém por ele, no abandono. “Mas os nossos gritos não se estagnam aqui na terra: elevam-se até Ele, que tem o coração de Pai e chora por cada filho e filha que sofre e morre” (Francisco, Audiência, 14/10/2020).

A oração salva o ser humano, que já está salvo por Cristo. “A referência ao absoluto e ao transcendente, a que os mestres da ascese denominam ‘temor sagrado de Deus”, é o que nos torna plenamente humanos, é o limite que nos salva de nós mesmos, impedindo que nos aventuremos nesta vida de modo predatório e voraz” (Francisco, Audiência, 21/10/2020). O temor sagrado de Deus é sempre único. Nele temos nossa esperança. Nele, nem sempre acolhemos tudo o que desejamos, mas temos o que não desejamos, mas que Deus quer para nós. Então, na oração do salmo, Deus salva o ser humano.

Alguns salmos são muito significativos: o salmo do Bom Pastor (Sl 23); o salmo da sede de Deus (Sl 62); o salmo daquele que habita no abrigo do Altíssimo (Sl 91) ou o salmo dos dois caminhos (Sl1). Nosso desejo é rezar com eles e, por meio deles, a Deus. Alguns são tão significativos que o nosso desejo é sabê-los de cor. Para quem crê, onde está Deus, deve estar também o homem. “Só os desígnios do Senhor permanecem eternamente, os pensamentos do seu coração por todas as gerações” (Sl 33,10).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta