Artigos, ATUALIDADES › 21/08/2020

Consagrados e Consagradas: vocação pela causa do Reino

“Vos sois a luz do mundo” (Mt 5,14)

No seguimento do mês vocacional celebramos a semana da vida religiosa, quando lembramos de homens e mulheres consagrados ao Senhor a serviço do Reino de Deus. Os consagrados e consagradas, a partir dos carismas específicos e em fidelidade ao projeto fundacional, atuam em diferentes realidades assumindo desafios quanto à evangelização e no anúncio de Jesus Cristo. O decreto Perfecta e Caritatis, promulgado durante o Concílio Vaticano II e que trata da atualização da vida religiosa ,aponta a vida consagrada, nas suas tantas dimensões e carismas, como uma inspiração do Espírito Santo, dom que expressa a multiforme sabedoria de Deus. Mais recentemente, a Conferência de Aparecida destacou a vida consagrada como um dom do Pai, por meio do Espírito Santo, à sua Igreja e constitui elemento decisivo para a sua missão (DAP 216). A Igreja precisou e precisa do testemunho destes homens e mulheres para agir eficazmente no prosseguimento à obra iniciada por Jesus.  Este apostolado é necessário ao mundo através da vivência das diferentes formas da vida religiosa. Sem desconsiderar a riqueza da vida contemplativa iniciada por Santo Antão e potencializada por São Bento, Santa Tereza e São João da Cruz, reflito neste texto a presença da vida consagrada nas linhas de frente da Igreja atuando na sociedade.

Ao longo dos séculos os consagrados e consagradas, através da Ordens, Congregações, Institutos Seculares e, mais recentemente, Novas Comunidades, têm contribuído para que a Igreja de Cristo continue a missão evangelizadora, interagindo com os diferentes desafios da humanidade: enfrentamento da pobreza e miséria; cuidado dos enfermos; cuidado de crianças e idosos; formação religiosa; educação; e em tantas realidades de abandono social. Estão presentes na Amazônia, junto aos povos da floresta, e também nas favelas e periferias das grandes cidades, buscando fazer o bem, assim como o Mestre de Nazaré.  Cabe frisar que estes compromissos fazem parte da missão evangelizadora da Igreja, segundo o princípio enunciado na Exortação Evangelii Nuntiandi que afirma a evangelização, anúncio da Boa Nova, como um caminho de transformação da humanidade (EN 17).

A presença junto aos diferentes grupos humanos, sobretudo os mais fragilizados, é compromisso evangélico e ético. Poder-se-ia estar em outros lugares, contudo a vida consagrada marca presença junto a estes grupos, pois são chamados a fazer destes lugares de presença, de sua vida fraterna em comunhão e de suas obras, lugares de anúncio explicito do Evangelho, principalmente aos mais pobres, como tem sido em nosso continente desde o início da evangelização. Desse modo, segundo seus carismas fundacionais, colaboram com a gestação de uma nova geração de cristãos discípulos e missionários e de uma sociedade onde se respeite a justiça e a dignidade da pessoa humana (cf. DAp 217).

Destaco dois exemplos de vida consagrada que, com sua atuação evangélica, fizeram a diferença em seu campo de missão doando-se pela causa do Reino.

Irmã Dorothy Stang (1931-2005), religiosa norte americana da Congregação de Notre Dame de Namour, deu a sua vida atuando junto aos povos da Amazônia. Conjugou a defesa da vida humana com a defesa da floresta, lembrando que são causas comuns, pois tudo está interligado segundo o princípio da ecologia integral ,reafirmada na Encíclica Laudato Si (LS 156). A ação profética de Irmã Dorothy incomodou muitas pessoas poderosas e ela foi covardemente assassinada na cidade de Anapu-PA em fevereiro de 2005. Este assassinato reforça o equívoco em acreditar que ao tirar vidas, mata-se a causa do Reino. Jesus já afirmava “não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). Ele também aponta o caminho da ressurreição como horizonte último dos comprometidos e comprometidas com seu Projeto no serviço aos mais pobres. Irmã Dorothy, que “alvejou suas roupas no sangue do Ccordeiro” (Ap 22,14) intercede por todos.

Também lembro Dom Pedro Casaldáliga (1928-2020), consagrado claretiano, bispo emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia – MT. Ao longo do seu ministério revelou um compromisso inequívoco com os povos indígenas e pequenos agricultores.O compromisso de Dom Pedro colocou, em muitos momentos, a sua vida em risco. Porém, ele não desistiu. Não tinha medo. Seu compromisso permaneceu até o último instante de sua vida. Sua voz e seus escritos, fundamentados no Evangelho, demonstraram como viver a opção pelos pobres no ministério episcopal. Conjugou na sua vida e ministério o espírito profético, a poesia e a mística.  Estas três dimensões da sua vida foram recordadas por ocasião da sua morte ocorrida recentemente quando, de diferentes lugares do Brasil, fez-se memória do seu testemunho.

Os testemunhos da Ir.Dorothy e de Dom Pedro confirmam que a vida consagrada é significativa para a Igreja e para a humanidade. Permite que o Evangelho chegue aos diferentes lugares do mundo a partir do serviço abnegado à causa do Reino. São as velas acesas por Deus em lugares onde a vida segue difícil, marcada por situações de trevas. Estas velas, por vezes vacilantes, mas teimando em se manterem acesas, ajudam a iluminar o caminho de tantas pessoas que não têm a quem recorrer senão aos consagrados e consagradas.

Agradeçamos ao Senhor pelo testemunho de tantos homens e mulheres e pedimos que continuem nos ajudando a promover uma Igreja em saída, fortalecendo o anúncio do Reino de Deus e de sua justiça.

Pe. Ari Antônio dos Reis