Artigos, Bispos › 21/06/2022

Coraçao Inquieto

“Fizeste-nos para vós, Senhor, e inquieto estará o nosso coração, enquanto não repousar em vós”. Esta famosa frase de Santo Agostinho revela o sentido da Festa do Sagrado Coração de Jesus que celebramos em junho. Nós temos desejo de Deus, assim fomos feitos, e somente no coração de Deus é que podemos ter sossego de tantas buscas, caminhos e desvios que vivemos no tempo que temos neste mundo.

Sabemos que o coração é um órgão vital. Mas na tradição judaico-cristã há um alargamento de sua compreensão.  O termo “coração” na Bíblia é escrito em hebraico לֵב – léb e em grego καρδία – Kardia, e aparece aproximadamente mil vezes no texto sagrado, com diferentes significados.  Além do sentido físico, há o significado psicológico, quando se diz que coração humano entende, percebe e reflete. Inclusive, nosso tempo reconhece o coração como lugar das emoções, chegamos até a dizer que “há um aperto no coração”, ou que “o coração está sofrendo”.  Igualmente pode-se dizer que certas notícias trazem alegria ao coração.

O coração, entretanto, é especialmente importante na religião bíblica. São Paulo escreve que o coração humano é o lugar do nosso conhecimento de Deus (2 Co 4, 6) e da morada divina (2 Co 1,22; Gl 4, 6; Ef 3,17). De outra parte, um coração mau pode ser o daquele que se afasta de Deus e procura substituí-lo pelos ídolos do egoísmo, do materialismo ou do poder.

Essa pluralidade de significados permite compreender o coração de Jesus.  Todo o ser de Jesus de Nazaré reflete sua interioridade profundamente marcada pela compaixão e misericórdia; esta, literalmente, significa “coração voltado para a miséria”; atitude de cuidado e amor para quem precisa.  Não há melhor expressão para caracterizar os gestos de Cristo em seus dias na Palestina, do que a misericórdia.

Seu olhar e seus pés se dirigiam para onde seu coração indicava. Viu como o povo estava sem líderes e perdido, por isso teve profunda compaixão, pois pareciam ovelhas sem pastor. E, por isso, ele mesmo se identificou com o Pastor segundo o coração de Deus, que não permite que as ovelhas se percam ou fiquem reféns dos lobos.  Suas palavras proclamam um tempo novo, suas atitudes e gestos confirmam seu discurso e todo seu ser expressa o coração amoroso de Deus que é Pai.  Por tanto amar e não ser correspondido, por ensinar o perdão, a partilha e a paz, foi crucificado; e seu coração foi transpassado pela lança do soldado. Daquele coração humano e divino, jorrou sangue e água. Sinais da vida nova que o Crucificado trouxe à humanidade.

Naquele sagrado coração, a humanidade pode confrontar cada escolha e decisão no tempo.  Ninguém fica neutro diante de Jesus, ou se constrói um mundo mais altruísta, solidário e responsável no amor, ou se endurece o coração optando por caminhos fechados. A Festa do Sagrado Coração remete que um outro coração, mais compassivo, é possível.  É como também escreveu Santo Agostinho: “Vosso Coração, Jesus, foi ferido, para que na ferida visível contemplássemos a ferida invisível de vosso grande amor”.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria