Artigos, Bispos › 24/06/2022

Cuidar da Família

De 22 a 25 de junho ocorre, em Roma, o X Encontro Mundial das Famílias. O tema a ser refletido será: Amor em família: vocação e caminho de santidade.  O encontro terá um caráter multicêntrico e disseminado, ocorrendo simultaneamente nas diversas dioceses do mundo.

Um ponto a ser destacado é que as famílias precisam procurar mais a vida comunitária. Na sociedade individualista de hoje, onde as famílias sofrem com a solidão e o isolamento, principalmente em situações de grave dificuldade, o ambiente comunitário torna-se essencial para fortalecer as famílias, fazendo seus membros sentirem que não estão sozinhos ao enfrentar desafios como a crise de relacionamentos, a educação dos filhos, as doenças, o luto, e as dificuldades econômicas.

Na relação entre o esposo e a esposa, entre pais e filhos, e entre irmãos, o ser humano aprende que não vem a este mundo pronto e acabado. Nascemos incompletos, porque precisamos do outro para nos cuidar, ensinar a caminhar e a falar e, em última análise, para viver. Quem se torna independente de todos, reivindicando uma autonomia absoluta, desiste de se completar na rica diversidade do amor compartilhado.

Mas sabemos que muitas pessoas carecem de uma família. Há uma orfandade em muitos corações, porque há quem prefira seguir seus sonhos esquecendo que cada um de nós é parte do projeto de vida dos outros. Compartilhamos esperanças e preocupações.  A dor de uma ruptura no amor familiar precisa mais de cuidado do que de acusadores, carece mais de atenção do que de julgamentos. E o fato de que muitos não tenham conseguido alcançar o ideal do amor em família não significa que esse projeto de paternidade e fraternidade tenha falido.  Nosso tempo pode ter grandes dificuldades em lidar com esses valores, mas eles permanecem desafiando cada geração a recuperar a essência de saber conviver em família como expressão de uma autêntica existência aberta aos outros. A família, a escola e a comunidade religiosa são espaços fundamentais para uma criança se completar em suas múltiplas aprendizagens ao longo da vida.

Igualmente precisamos recordar as famílias atingidas por contingências que as abalaram: uma doença, uma perda, um acidente, uma crise econômica, um imprevisto. Aqui está o desafio das demais famílias em se abrirem para ajudar a superar as faltas e, solidariamente, viver numa comunidade onde todos possam se desenvolver, não obstante os revezes da vida. Situações especiais, difíceis e até incompreensíveis precisam de pessoas solidárias e capazes de cuidar.

A vocação à santidade de uma família é a de não idealizar, mas de acolher as diversas situações e provações, como oportunidade de viver a graça de Deus, que sempre nos acompanha, nos chama à conversão dos nossos estilos de vida, mesmo quando parece que a noite e o frio invadem o coração do lar.

Pais e filhos, avós e netos, certamente podem estabelecer novos rumos em suas vidas quando se sentem corresponsáveis uns pelos outros. Uma família, vivendo entre luzes e sombras a sua vocação, é o maior exemplo de fraternidade que o mundo pode receber. Não somos órfãos, temos um Pai que nos quer todos irmãos.  A falta desse senso de paternidade comum, de família comum, pode ser uma das grandes causas da falta de fraternidade.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria