Artigos, Bispos › 22/10/2021

Cuidar dos corpos e tocar o espírito

No dia 18 de outubro, celebra-se o Dia do Médico, festa de São Lucas, evangelista e médico, por isso seu protetor e padroeiro. É uma profissão. Uma das que mais precisamos na vida. Num ou outro momento, uns mais e outros menos, buscamos alguém que cure nossas dores, físicas e psíquicas. O juramento no dia de sua formatura é um atestado de doação, de entrega e de cuidado da vida. Aqui está um diferencial: uma profissão das que tem algo maior, especial, e, porque não, mais exigente. Responsabilizar-se pela saúde dos nossos corpos. Cuidar da vida. A pandemia reforçou ainda mais o quanto é valiosa e essencial para a sociedade a presença e o labor dos médicos.

Um médico, meu amigo, o qual considero jovem, há pouco tempo disse-me que ele exerce a medicina “ao modo antigo”. Com um sorriso e elegantemente traduziu-me a expressão. Ele faz questão de consultar o paciente dedicando-lhe um bom tempo. Olhar nos olhos, conversar, perguntar, sentir os batimentos, a respiração, os pulsos, se tiver dor, tocar o doente. Isto já é tratar o paciente. Depois haverá exames, recursos tecnológicos capazes de ajudar muitíssimo o médico no intento da cura. Saúde do corpo comporta atenção, emoções, psique, espírito. Cuidar do corpo é também cuidar da “anima” que é vida deste corpo. Por isso, a nobreza desta profissão.

A figura deste médico reforça em mim o conceito de que medicina é missão. Sob o ponto de vista do cuidado, é um “sacerdócio”. É cuidar da vida. Nisto, toca a esfera do sagrado. Pois o próprio Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).  No serviço de cuidar do corpo, o médico também toca a alma da pessoa. Recorro, mais uma vez, ao Senhor, que nos caminhos, nas casas, campos ou templo, curava pessoas e a multidão o buscava. Queriam que Ele as tocasse. Pediam cura do corpo e Ele lhes concedia também a cura do espírito. “Todos os que tinham doentes, traziam-nos a Jesus…” (Lc 4, 40-41).

A vida espiritual, a experiência de fé, que é transcendente, também se dá no corpo. E que dignidade lhe dá Paulo: “Vós sois templos do Espírito Santo”. Na dor, nosso ânimo e humor se abatem. O médico busca com seu conhecimento e saber, dar nova expressão ao nosso rosto, alegrar nosso olhar, fortalecer os passos, normalizar nosso coração, reequilibrar nossa respiração, harmonizar nossos órgãos. Doa novo sorriso aos nossos lábios, novo brilho aos nossos olhos, expressão em nosso rosto, novo ânimo ao nosso espírito. Cuidar da vida é missão de amor, missão divina.

Gratidão a todos os médicos e médicas, em especial, quem nesta pandemia passou horas e dias intermináveis na ajuda aos hospitais e aos pacientes. Nosso reconhecimento de heroicidade. Como soldados que se embrenham numa batalha de onde não se sabe quando e como sair; mas lutaram e lutam pelo dever jurado. Pela causa assumida. Pelo bem maior: a vida do povo. Parabéns, nossos heróis e heroínas.

Termino pedindo ao Senhor Deus que inspire sempre a missão e o trabalho de cada um. A veste e uniforme, que sempre inspiram serenidade, dedicação e proximidade, possa continuar a ser o símbolo de uma vida dedicada em primeiro lugar ao cuidado da saúde do próximo. Profissão que toca em nossos corpos como a nobreza de quem se cuida do espírito. Aproveito a data para felicitar também o dentista no dia 25 de outubro. “A saúde começa pela boca”. Pela intercessão de São Lucas, Deus os abençoe. Feliz Dia do Médico e do Dentista.

Dom Adilson Pedro Busin – bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre