Artigos, Bispos › 07/12/2021

E a Palavra habitou entre nós – 02

Pelo Advento estamos preparando o nascimento de Jesus Cristo, a Palavra que se fez carne (cf. Jo 1, 14). Hoje continuamos a apresentar o recente documento da CNBB que fala sobre este mistério da presença de Deus entre nós, com o título: “E a Palavra habitou entre nós”, destacando a importância da animação bíblica de toda pastoral a partir das comunidades eclesiais missionárias.

Na mensagem anterior já vimos que Jesus mesmo fala sobre a Palavra, pela qual Deus se revela à humanidade. Por isso deve ser semeada para todos, mesmo que a acolhida não seja plena. Desconhecer a Sagrada Escritura é desconhecer Cristo. A Leitura Orante e outras formas de celebração da Palavra são formas privilegiadas de encontro pessoal com o Senhor e fonte de evangelização.

A Palavra de Deus ilumina todas as áreas da nossa vida: as relações afetivas, familiares, profissionais, comunitárias, sociais, políticas, econômicas e ambientais: “A Palavra de Deus ilumina todas as dimensões da vida”. Tornar exclusivo um destes aspectos do nosso ser significa incorrer no reducionismo: absolutização de um olhar e negação dos outros. É preciso também superar o intelectualismo bíblico por uma espiritualidade bíblica, centrada na pessoa de Jesus Cristo e que une fé e vida. São Jerônimo lembra: “Ignorar as Escrituras é ignorar o Cristo”. Por isso é necessário convívio e familiaridade, sobretudo na vida da comunidade, através das celebrações litúrgicas, das homilias bem preparadas, da Leitura Orante, da integração da Palavra de Deus e as devoções populares, assim como a relação com as diversas situações da vida humana, sobretudo dos pobres e descartados. Neste sentido afirma o documento: “É um risco grande para as pessoas de fé: desejarem olhar apenas para Jesus, sem perceberem que Jesus está olhando para todos, em especial para quem sofre”. Ele mesmo quis identificar-se com os sofredores. Por isso a Palavra de Deus deve gerar atitudes de empatia, de paz e de misericórdia.

As celebrações da Palavra, presididas por leigos e leigas, não significam apenas uma função supletiva, mas um papel importante na vida litúrgica da Igreja. Igualmente na catequese a presença da Palavra de Deus faz arder os corações e a Leitura Orante da Palavra de Deus tornou-se um dos modelos mais criativos de espiritualidade orientada à evangelização; através dela não acontece apenas a escuta, mas também o encontro com o Senhor. É fundamental a leitura comunitária da Palavra, pois ela, junto com os sacramentos, sustenta a unidade da Igreja.

Os ministros ordenados devem ser protagonistas da Animação Bíblica da Pastoral. Que os bispos se deixem guardar e nutrir da Palavra como de um ventre materno (cf. PG 15). Os presbíteros e diáconos são consagrados para o ministério da Palavra. Por isso os candidatos já se alimentem assiduamente com a Palavra. Os pregadores têm a sublime e difícil missão de unir os corações que se amam: o de Deus e dos fiéis. As pessoas de vida consagrada nascem da escuta da Palavra de Deus e acolhem o Evangelho como sua norma de vida.

É importante deixar claro que nas dioceses a animação bíblica da pastoral é permanente e está ligada a todos os membros do Povo de Deus: leigos/as, consagrados/as e ministros ordenados. Estamos num tempo em que precisamos deixar a Bíblia falar. É ela que forma discípulos/as de Jesus. Não se trata de somente oferecer informações sobre a Bíblia, mas propor caminhos de oração e comunhão com a Palavra.

A Palavra se fez carne e habitou entre nós. Bom Advento!

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul