Artigos, ATUALIDADES › 14/09/2021

Educação, Espiritualidade e o Cuidado com a Vida

Dentre os legados deixados pela primitiva fé do povo hebreu, sem dúvidas, o mais importante de todos é o zelo de Deus pela vida por Ele criada.  Quando chama Abraão para que deixe sua terra aventurando-se deserto adentro, o Senhor vislumbra a terra da prosperidade, onde a vida pode espalhar-se e dela é possível sorver a doçura da abundância e da plenitude. Desde o começo, a vida parece debater-se ameaçada pelas mais diferentes circunstâncias. Não à toa, a Sagrada Escritura relata o sacrifício de Isaac, no qual Deus extingue de uma vez por todas o sacrifício cruento, deixando claro que não se agrada com o extermínio, mas com o revigoramento da vida.

Em Jesus Cristo, deu-se o pleno cumprimento e a revelação desse Deus amoroso que ama, protege e indica os caminhos para que possamos viver melhor. “Eu vim para que todos tenham vida.” (Jo. 10,10) Eis a declaração do Senhor, confirmada pelos inúmeros gestos de cuidado, proteção e resgate da vida, especialmente dos desamparados, dos esquecidos, dos marginalizados, a quem se destina o Reino de Deus, como preferidos do Altíssimo.

Proteger os que mais precisam, curando suas feridas, estando ao seu lado nos momentos de sofrimento e dor, foi também desde o início da igreja preocupação central, não apenas por questões humanitárias, mas por necessária coerência entre o que se crê e o que se vive, como bem afirmou o Apóstolo Tiago ao referenciar que “a fé sem obras é morta”. A escolha dos diáconos para cuidar das viúvas e dos órfãos, a coleta feita em favor dos pobres, como relata o novo testamento, a fraternidade em que viviam as primeiras comunidades que colocavam tudo em comum tinha uma só razão de ser: promover a  vida de todos.

Viver em Cristo sempre teve como símbolo a proteção e o cuidado dos mais vulneráveis, daqueles em quem a vida corre risco de ser agredida e machucada. Também assim viveram os santos. Espiritualidade tem a ver com o jeito de viver, com a opção fundamental. Trata-se de optar por um caminho em que se torna inegociável o dever de cuidar da vida. Fala-se, hoje, muito em espiritualidades. Na verdade, são diferentes maneiras de viver uma única espiritualidade, ou seja, a vida do espírito, a vida de quem aderiu ao evangelho como norma de vida, construída em relação, não sozinho e nem no anonimato. Todos têm rosto e cada um revela  a imagem de Deus.

A espiritualidade cristã só é autêntica se, seguindo os passos do mestre, inclui a alteridade, se deixa espaço para o outro, acolhendo-o e permitindo-lhe ser (quando não muitas vezes ajudando, a fim de que possa tornar-se o melhor que pode ser). É impossível, incompreensível e até escandaloso imaginar um cristão que deseje viver sua fé num individualismo fechado e autocentrado, porque Deus mesmo, em sua intimidade vive em comunhão de amor.

A educação católica, seus agentes, os programas acadêmicos com seus objetivos, para muito além da disciplina de ensino religioso, cultura religiosa ou qualquer outra nomenclatura que se use, só é autêntica à medida em que esforça-se priorizando o cuidado da vida, como dom de Deus e trabalhando para que cada pessoa possa encontrar-se e encantar-se com a vida, com a sua vida e a vida do outro, numa atitude de respeito e reverência para com tudo o que existe. Surge-nos, novamente e a cada passo, o chamado a proteger e zelar pela vida, desde o nascimento até o seu ocaso. E o mês que ora vivemos (SETEMBRO AMARELO), uma vez mais lembra-nos a urgência de escutar, acompanhar, acolher e amparar muitas vidas, que são preciosas, para não mais vermos nem presenciarmos o extremo ato de desespero de quem não se sente mais bem-vindo a este mundo. Cuidemos da vida, de todas as vidas!

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade