Artigos, Bispos › 01/10/2021

Ele se fez missão

“Jesus Cristo é missão” será o tema guia para o Mês Missionário, cuja inspiração bíblica é “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos”. (At 4, 20).

Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, “se fez carne e habitou entre nós”. Seus pés pisaram os campos da Galiléia, as vielas de Cafarnaum e as ruas de Jerusalém. Cruzaram campos de trigais. Sentiram as areias da praia. Caminharam pela Samaria e subiram os cimos de Jerusalém. Calçaram as sandálias de peregrino.  Sentiram as lágrimas e o beijo da pecadora. Os cravos na cruz. O sangue derramado.

Seu olhar viu o broto das vinhas, o lírio dos campos, a mudança das estações. Os pássaros do céu. Percebeu a multidão faminta e viu o suor dos trabalhadores. Observou a oferta da viúva e repreendeu a arrogância dos que julgavam hipocritamente. Viu a cegueira que buscava pela cura e o coxo que esperava por ela.  Ergueram-se em oração ao Pai nos momentos de decisão ou no Getsemani.

Abriu os ouvidos para escutar o grito de Bartimeu e endemoninhados, o pedido do centurião em favor do empregado. Ouviu a súplica da viúva e a voz do pai a pedir por sua filha. Ouvia a discussão pelo poder dos discípulos no caminho. O canto dos pássaros do céu.

Sua voz ensinou nas sinagogas e no templo, nas casas e nos campos. Profetizava nas praças e nos povoados. Mudava o tom para corrigir a usurpação do templo ou dos pequenos. Falava das crianças e do Reino. Fez-se voz dos últimos e dos pobres. Chamava os discípulos ao seguimento e os pecadores à conversão. Consolava os pobres, dava voz às mulheres e aos estrangeiros para os colocar no coração do Reino do Pai. Falou do perdão, do amor aos inimigos e da paz.

Suas mãos tocaram os ouvidos dos surdos e os olhos dos cegos. Apontou os erros e a hipocrisia. Escreveu no chão e estendeu a mão para perdoar a pecadora. Segurou Pedro ao grito de socorro. Abençoou as crianças e abraçou-as com afeto. Também elas lavaram os pés dos discípulos. Mãos que tomaram o pão e o cálice e os abençoou. Mãos pregadas na cruz com sangue de doação total.

Seu coração sentiu compaixão pela multidão faminta. Tristeza pela morte de Lázaro. Ira pela insensibilidade dos que “tudo sabiam”. Amizade pelos discípulos e pelas irmãs Marta e Maria. Empatia pela mulher que lhe tocou a barra do manto. Amor pela humanidade. Unidade com Pai.  Rejeição dos seus. Provou a traição do amigo e a negação de quem jurara morrer por ele. Um coração capaz de dar tudo. Dar a vida. Morrer por amor, pela salvação do mundo. Amor que imprimiu no coração dos apóstolos o seu amor. E os que foram chamados os constituiu apóstolos de seu evangelho, sua morte e ressurreição. No coração dos apóstolos Jesus Cristo se fez missão.

Sua boca anunciou a boa nova aos pobres. Pronunciou as bem-aventuranças do Reino. O amor providente do Pai. Seus lábios invocaram a bênção do pão e do vinho, seu corpo e seu sangue. Ceia do amor. Na cruz, mesmo na dor, é capaz de dizer: “Tudo está consumado. Em tuas mãos entrego meu espírito.” Missão cumprida? Ainda não! Ressuscitado, ele diz aos seus: “Ide, e anunciai a boa nova a todos os povos!” Jesus Cristo se fez missão! Os apóstolos disseram: “Não podemos deixar de falar tudo o que vimos e ouvimos”. E partiram em missão.

A Igreja, desde os apóstolos, continua a missão de seu Senhor. A missionariedade é inerente ao ser Igreja. De uma forma ou outra, todo batizado é missionário. O modo de viver é que nos distingue. Os padroeiros das missões são paradigmas do que é ser missionário: São Francisco Xavier e Santa Teresinha do Menino Jesus. O primeiro, jesuíta, apóstolo incansável da Ásia. Escutou o chamado, foi enviado, partiu e nunca mais retornou. Deu a vida em terras orientais. Incansável missionário, na pregação e nas milhas percorridas. Cumpriu sua missão.

Santa Teresinha do Menino Jesus também escutou o chamado, e deixou tudo para estar com o Senhor. Enclausurada num carmelo, nunca pisou terras estrangeiras. O que a faz padroeira das missões? Sua oferta, gestos pequenos, e suas orações para as missões da Igreja. “Na Igreja eu serei o amor” é seu famoso testamento. Dos dois, quem é maior? Onde há amor, tudo se torna grande e cheio de sentido. No amor, é grande quem “perde” sua vida em terras inóspitas, e é grande quem gasta os joelhos nas preces de um convento. Quem se abaixa para escutar ou ajudar um irmão de rua. Quem se aproxima do sofredor. Nobre é a missão do pai e da mãe que dia a dia doa a vida para bem dos filhos. Grande é quem consagra sua vida ao serviço do Senhor, doando-se ao mundo e anunciando, por palavras e, sobretudo, pela vida, o amor de Deus. Grande é quem se faz pequeno para que Ele seja o centro. Então o amor se faz vida. E a vida se faz missão, pois Jesus Cristo é missão.

Por Dom Adilson Pedro Busin. cs. – bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre