Artigos, Bispos › 21/07/2020

Falemos de esperança

Falemos de esperança, do novo deste tempo. Nosso olhar precisa ser portador da proposta positiva de nossa fé. Vivemos, nestes dias, talvez o momento mais complicado da pandemia, do Covid 19. Quantas pessoas são tomadas pelo medo, que tem tantas maneiras de se manifestar. O medo principal é o de morrer!Para outros, a depressão e a ansiedade. Alguns, no entanto, minimizam e afirmam que nem devemos nos preocupar. Nós, cristãos, levamos conosco, para nossas famílias e ambientes de trabalho, a certeza da esperança que sempre nos anima. Ela não significa esperar sem se comprometer. “A mensagem cristã não era só «informativa», mas «performativa». Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida” (Bento XVI, SpeSalvi, 2). Enfim, qual a vida nova que está sendo gerada, formada, em cada um de nós, nestes dias difíceis para a sociedade e para a Igreja? Como não sucumbir nas dificuldades? Em quem crer?

Retorno ao Papa Bento XVI: “A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceito, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho” (SpeSalvi, 1). Então, nossa esperança, como cristãos, vai além. Baseia-se na fé que temos. Nela encontramos a certeza da vitória final, pois o Crucificado é o Ressuscitado, vivo na história, pela presença do Espírito Santo. Mas, porque a redenção é fonte de esperança? Porque ela faz com que olhemos a realidade, com todo seu peso e sofrimento, vendo além. Nunca nossa fé é uma fuga da realidade, mas a certeza de que há alguém por nós, que nos olha, nos ama, nos acompanha e nos mostra o que nos espera um dia.

Esta esperança precisa ser acolhida, pela fé, e ser cultivada, para que os fatos da vida consigam espelhar o que cremos. Recordo, preocupado porque não sei se todos entenderam, as orientações que, tantas vezes, já damos aos nossos católicos. Em casa, rezemos cotidianamente e cuidemo-nos uns dos outros. Para acolher e cultivar a esperança é preciso o encontro cotidiano com Cristo. Contemplemos Cristo Crucificado-Ressuscitado. Aprendamos dele, como discípulos. Ele nos fará ver além de nosso mundo e de nossos pequenos e frágeis conceitos. Rezemos com a Palavra de cada dia. Ainda, infelizmente, não podemos estar todos na celebração eucarística. Isto é motivo de sofrimento para todos nós.

Em segundo lugar, refletimos sobre nosso lugar no mundo, sobre o sentido de nossa vida. Deus age sempre e nos faz ver o que é mais importante. Partimos da Palavra para encontrarmos respostas à vida. Tiremos de nós todas as sobras de orgulho e de mesquinhez, que nos tolhem o que somos como humanos. No final, sejamos mais humanos e fraternos. Falar e acusar menos. Ouvir e acolher mais. Recordemos que formamos uma grande e bela família, onde todos são dignos e têm os mesmos direitos e deveres. Este é o momento que não é de perda para os cristãos, mas “um retiro prolongado”, de redefinição de nossa identidade e nosso lugar no mundo.

Em terceiro lugar, a esperança move para a misericórdia. Ela quer ver a todos bem. Não deixemos ninguém passar necessidades. A caridade humaniza e dá alegria. Ela faz o mundo ser mais fraterno. Continuemos a construir a esperança, com o projeto: “É tempo de cuidar”.

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta