Fazer a vontade do Pai
A vida cristã é um contínuo caminho para “fazer a vontade do Pai”. A condição humana, marcada pelas limitações e fraquezas, faz que a vida cristã seja vivida com contradições, incoerências e traições. O ‘sim’ dado a Deus e ao próximo nem sempre é cumprido. Da parte de Deus, sempre fica aberta a possibilidade de retornas, isto é fazer do ‘não’ um sim. (Ezequiel 18,25-28, Salmo 24(25), Filipenses 2,1-11 e Mateus 21,28-32).
Jesus está dialogando com os “sacerdotes e anciões do povo”, lideranças da comunidade, e lhes apresenta uma situação para emitirem um juízo. Um homem tinha dois filhos e pediu a ambos trabalharem na vinha. O primeiro disse ‘não’, mas depois mudou de opinião e foi; o segundo disse ‘sim’, mas não foi. “Qual dos dois fez a vontade do pai?”, pergunta Jesus. Respondem que foi o primeiro.
A mensagem é bem clara. As palavras são fundamentais, mas somente elas não bastam. Precisam se transformar em ações correspondentes. O filho que disse sim criou uma expectativa de que o trabalho acontecesse imediatamente, pois o pedido do pai foi para ‘hoje’ e quando não se concretizou veio a decepção. O outro filho ao dizer não fechou a questão e o assunto estava resolvido. Ao mudar de ideia para fazer o trabalho solicitado gerou uma mudança para melhor nas relações.
A parábola também revela a instabilidade e a fragilidade do ser humano que se manifesta nas grandes opções de vida, por exemplo, no matrimônio, nos votos da vida religiosa ou no sacramento da ordem. A mesma instabilidade se visibiliza também nas pequenas opções do cotidiano. Quanto ‘sim’ é dito de modo solene, mas depois progressivamente vai se transformando em ‘não’. Outros, com medo de dizer ‘sim’, preferem dar uma resposta que soa ao mesmo tempo sim e não. Como humanos vivemos nesta instabilidade. Por outro lado, dizer sim e não é uma necessidade fundamental na vida. Seguramente ninguém de nós pode garantir que será para sempre e por toda vida fiel ao sim ou ao não dado. São Paulo, com sereno realismo, alerta: “Portanto, quem juga estar em pé, tome cuidado para não cair” (1 Cor 10,12).
Duas atitudes são fundamentais para conservar o sim, sempre sim: obediência e humildade. Todo sim é uma resposta dada a alguém e a partir daquele momento deve-se obediência. Na carta aos filipenses são Paulo apresenta Jesus Cristo como exemplo que, “existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens […] humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte”.
A vida cristã é uma existência para os outros, um compromisso humilde a favor do próximo e do bem comum. Cristo veio para salvar e servir o mundo, portanto se fez humilde para estar e viver a serviço dos humanos. A humildade é uma virtude que não goza de muita estima, mas os cristãos não podem deixar de cultivá-la, pois ela torna fecundos os diálogos, a colaboração cordial e unidade. A palavra humildade, de origem latina, remete a húmus, isto é, com aderência à terra, à realidade. As pessoas humildes vivem com os pés na terra, escutam a Cristo, se encantam com seu exemplo renovando-se constantemente. A humildade é uma virtude que auxilia a cumprir o sim dado.
A vida cristã deve medir-se continuamente pela de Cristo: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Jesus Cristo”. São Paulo recorda uma das marcas fundamentais de Cristo foi a vivência da harmonia e da unidade. Cristo estava totalmente unido ao Pai e era-lhe obediente. Sua vida era fazer a vontade do Pai, ao ponto de oferecer-se na cruz. O exemplo de Jesus Cristo torna-se norma para seus discípulos de obedecer a Deus, de dizer-lhe sim e manter-se unidos entre si. Humildade e obediência gera perseverança para realizar o sim dado com liberdade.
+ Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo Metropolitano de Passo Fundo