Artigos, Bispos › 05/03/2020

Fraternidade e vida: dom e compromisso | parte II

As palavras são vivas e vão sofrendo alterações com o passar do tempo. Novos termos começam a fazer parte da linguagem e outros vão entrando em desuso. Cada área humana tem uma linguagem própria e quem não faz parte dela sente-se deslocado ou tem uma compreensão parcial. Considerando que a Campanha da Fraternidade é gestada na Igreja faz-se necessário aprofundar algumas palavras: Fraternidade e vida: dom e compromisso.

O vocábulo fraternidade nasce de frater, termo latino que significa irmão. Irmãos vêm significar uma realidade pessoal que possui determinadas características naturais. O conceito de fraternidade é posterior ao termo concreto de irmão e apresenta-se como uma meta a ser alcançada, um projeto a ser construído. Porém ambos os termos contêm a intenção de aludir a uma realidade.

Vários argumentos fundamentam a escolha para construir fraternidade, destacaria um religioso, outro filosófico e um sociológico. O argumento religioso e bíblico para fraternidade destaca a revelação de Jesus Cristo que apresenta a Deus de Pai. Aqueles que têm a Deus por Pai são irmãos entre si. A oração do Pai Nosso, ensinada por Cristo, começa destacando a irmandade. Os batizados receberam o mesmo Espírito do Pai, se tornam consanguíneos e herdeiros. Como também, constituem uma Igreja que requer vida fraterna.

A filosofia, na área da metafísica, fala em essência e acidente. Analisando o ser humano, para poder ser aquilo que ele é, precisa ter uma essência comum sem a qual não pode ser identificado e nem reconhecido como humano. Mas os seres humanos são diferentes, por exemplo, em idade, saúde, altura, cor, sexo, credo, estes são os acidentes que não desfiguram a essência.  Filosoficamente a fraternidade se funda na essência comum. Grandes pensadores clássicos cristãos, como Santo Tomás de Aquino, elucidaram magistralmente estes conceitos.

O argumento sociológico está nos contratos sociais. O artigo 5º da Constituição brasileira afirma claramente que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…” É uma lei constitucional que reconhece a igualdade entre os cidadãos e a necessidade da construção da fraternidade.

Vida é um conceito muito amplo e por isso a abordagem partirá e ficará na inspiração bíblica. O Antigo Testamento não faz distinção entre “vida” como princípio de vitalidade e vida como vivência. Sua linguagem é mais concreta que abstrata, e a vida é vista como plenitude do poder, como o prazer que acompanha o exercício das funções vitais, como integração com o mundo e com a sociedade em que vive cada pessoa. A perda destes elementos constitui uma diminuição de vida, e reflete uma aproximação da morte.

A vida é o bem básico sem o qual não são possíveis outros bens. Deus dá a vida e é a fonte dela. Deste modo a vida é uma dádiva continuamente renovada. A qualidade de vida se dá a partir de livre escolha ética e religiosa, pois o ser humano pode escolher entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, entre a benção e a maldição, entre integrar a vontade humana com a vontade divina ou não. O Novo Testamento ressalta a vida que advém do batismo que é definida como viver, mover-se e ser em Cristo. Um caminho vital destinado para a eternidade.

A construção da fraternidade é obra fascinante, mas laboriosa e difícil; o individualismo é mais fácil. Malogros, decepções e cansaço tendem relegar a fraternidade ao mundo das utopias, induzir a construí-la em pequenos espaços, diminuir esforços, para que isto não aconteça a Campanha da Fraternidade acentua a esperança. Sim a fraternidade é possível.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo