ATUALIDADES › 18/02/2020

Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso

Com o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, a Campanha da Fraternidade de 2020 nos convoca a seguirmos o exemplo do samaritano que, na parábola contada por Jesus, se fez próximo do homem caído à beira do caminho (Lc 10,30-37). E é esta parábola que fundamenta o tema “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”, explicitado no Texto-base publicado pela CNBB.

O Bom Samaritano: Anúncio da compaixão e do cuidado com a vida

A pergunta do doutor da Lei feita para experimentar Jesus (Lc 10,25), é fundamental em toda a catequese: “Que devo fazer para herdar a vida eterna?”

No tempo de Jesus, existiam 613 leis que deveriam ser cumpridas para que alguém pudesse ir para o céu. Todas elas poderiam ser resumidas em “amar a Deus e amar o próximo”. O problema estava em saber: Quem é o próximo? Com a parábola do Bom Samaritano, Jesus mata a xarada: O próximo é todo aquele de quem nos aproximamos. O impulso é dado pela compaixão, uma vez que todos, sem distinção, devem ser amados. Não somos nós que definimos quem é o próximo, mas é a pessoa em situação de necessidade a quem devemos reconhecer como próximo, “usando de misericórdia para com ela”. Por isso, o Papa Francisco diz que a chave do amor ao próximo é a compaixão: “a capacidade de compaixão se tornou a medida do amor cristão”. Precisamos ser capazes de chorar com os que choram. “A misericórdia, diante de uma vida humana em situação de necessidade, é a verdadeira face do amor”.

VIU, sentiu compaixão e cuidou dele

A parábola do Bom Samaritano nos mostra duas maneiras de olhar: um olhar que vê e passa em frente (sacerdote e levita), e um olhar que vê, permanece, se envolve e se compromete (samaritano).

O olhar do sacerdote e do levita representa toda indiferença e desprezo pela vida do outro. É este olhar que faz com que 22,6% das crianças e adolescentes do Brasil vivam em situação de extrema pobreza. É ele que está na origem da desigualdade social que aumentou os rendimentos dos 10% de brasileiros mais ricos em 6% no ano de 2018 e diminuiu o rendimento dos 50% mais pobres em 3,5%.

Entre os caídos à beira do caminho à espera de um olhar de compaixão, o Texto-Base aponta: os pobres; as crianças órfãs; os desempregados; as pessoas deprimidas; os potenciais suicidas; os acidentados no trânsito; os povos indígenas; as vítimas do feminicídio; as pessoas envolvidas em conflitos de terra, água e trabalho; os presos; os perseguidos pelas redes sociais e meios de comunicação social; as vítimas de discriminação e das fake News…

Junto aos caídos que esperam por um olhar de compaixão, o Papa Francisco diz que “é necessário ter atenção para com o todo da vida, incluindo os ambientes em que vivem as pessoas”. Precisamos atentar para o aquecimento global e alertar sobre alguns tipos de agronegócio que promovem a monocultura e exageram no uso dos agrotóxicos.

Com o olhar da fé, identificamos algumas luzes: participação nos Conselhos de Direitos, nas ONGs, nos Movimentos Populares, Sindicatos e Associações; o surgimento de serviços de escuta e ajuda no combate às drogas, ao alcoolismo, ao jogo e ao sentido da vida; o incremento nas visitas missionárias em áreas de maior vulnerabilidade; o exemplo dos pais que acolhem com amor os filhos com deficiência; os voluntários das pastorais … Em vista do amanhã, precisamos de um olhar solidário e respeitoso com a vida, “missão primeira do ser humano em relação a toda a criação”.

Viu, SENTIU COMPAIXÃO, e cuidou dele

O olhar da compaixão fecunda o bem no coração humano e confere verdadeiro sentido à vida. Gera um “permanecer com”, uma presença que salva, cuida e transforma a vida de quem mais precisa.

Em sua vida aqui na terra, Jesus Cristo nos mostrou o rosto da misericórdia do Pai. Mostrou que Deus tem compaixão de nós, padece conosco, está ao nosso lado e sente os nossos sofrimentos.

Nossa vida assume sentido quando abrimos nosso coração ao outro, de modo especial ao outro que sofre, que é pobre, abandonado, esquecido às margens da sociedade da indiferença e da exclusão. A Páscoa nos ensina a romper os túmulos da indiferença e do ódio e ressurgir para o zelo, o cuidado e a solidariedade, incluído o cuidado com a Casa Comum.

Quem ama não julga, não acusa, não divide! Quem ama, cuida, acolhe, integra, dialoga, suporta, se compadece. Nossas mãos não podem estar fechadas para socar e agredir. Elas têm de estar abertas para apoiar e cuidar.

A missão do discípulo missionário de Jesus Cristo é revelar ao mundo o rosto da misericórdia, edificar a justiça e viver a compaixão. Promover a justiça ligada à caridade. Responder a uma necessidade real que impele ao próximo, mas também organizar e estruturar a sociedade de modo que o próximo não venha a se encontrar na miséria.

O sentimento de compaixão leva a agir com ternura. “Não é possível falar de cuidado sem falar de ternura. Ambos são centelhas do amor Divino que experimentamos quando saímos de nós mesmos e vamos ao encontro dos outros”.

Viu, sentiu compaixão e CUIDOU DELE

O ser humano, que recebe o carinho divino e que é chamado a cultivar a criação, é também convocado a cuidar da vida em todas as suas formas e expressões. Para isso, é preciso descer da montaria e oferece-la a quem está ferido à beira do caminho.

Com a Campanha da Fraternidade, somos convidados a proclamar que a vida, Dom e Compromisso, é essencialmente samaritana. Não podemos agir como Pilatos que “mesmo consciente da inocência de Jesus não foi capaz de agir em favor da vida do Salvador”. Temos à nossa disposição duas bacias: a bacia utilizada por Pilatos que é símbolo da indiferença e da omissão, e a bacia utilizada por Jesus, símbolo do cuidado e compromisso com o serviço.

As mudanças só serão reais se começarem em nós e a partir de nós. “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no oceano. Mas o oceano seria menor se lhe faltasse uma gota” (Santa Teresa de Calcutá).

As propostas de ação podem ser resumidas em nove verbos:

Primeirar (ter iniciativa); Envolver (comprometer mais pessoas); Acompanhar (ser presença); Frutificar (conquistar); Festejar (confraternizar, aproximar); Acolher; Proteger (cercar); Promover (consciência, ação); Integrar (outros grupos).

Conclusão

Conselhos do Papa Francisco: “Não te rendas à noite”; “Onde quer que você esteja, construa”; “Promova a paz e não ouça a voz de quem espalha ódio e divisões”; “Ame as pessoas e respeite o caminho de todos”; “Não tenha medo de sonhar”; “A cada dia, peça a Deus o dom da coragem”; Lembre-se: “Você não é superior a ninguém”; “Cultive ideais”; “Nada é mais humano do que cometer erros”; “Acredite firmemente em todas as pessoas que trabalham pelo bem”. Finalmente: “Cada pessoa é digna da nossa dedicação, não pelo seu aspecto físico, suas capacidades, sua linguagem, sua mentalidade ou pelas satisfações que nos pode dar, mas porque é obra de Deus, criatura sua”. Fraternidade: Dom e Compromisso.

Pe. Roque Hammes – Diocese de Santa Cruz do Sul