“Magnifica Humanitas: Papa Leão XIV propõe reflexão sobre a dignidade humana na era da inteligência artificial”, reflexão de dom Leomar Brustolin
A inteligência artificial deixou de ser apenas tema de filmes ou objeto de pesquisa em laboratórios. Hoje, ela já influencia decisões econômicas, organiza informações, interfere na formação da opinião pública e, pouco a pouco, redefine aspectos essenciais da experiência humana.
É nesse contexto que o Papa Leão XIV surpreende o mundo e publica a Encíclica Magnifica Humanitas, um dos textos mais provocativos do atual magistério da Igreja.
Publicada no último dia 25 de maio pelo Papa Leão XIV, a Encíclica apresenta uma profunda reflexão sobre a Doutrina Social da Igreja diante dos desafios contemporâneos, especialmente aqueles ligados à inteligência artificial e ao paradigma tecnocrático. O texto convida a humanidade a reencontrar o sentido do humano em meio ao fascínio pela técnica. Mais do que condenar ou exaltar a tecnologia, o Papa propõe uma pergunta decisiva: “Que humanidade estamos construindo?”.
A inteligência artificial, afirma o Pontífice, não é neutra. Ela carrega interesses, visões de mundo e até as ambições daqueles que a controlam. Por isso, o maior risco não é a máquina pensar como o ser humano, mas o ser humano deixar de pensar como humano.
A originalidade da Encíclica está exatamente aqui: unir fé, tecnologia e Doutrina Social da Igreja numa reflexão profundamente cristã e, ao mesmo tempo, concreta. O Papa usa duas imagens bíblicas fortes: Babel e Jerusalém. Babel representa a técnica sem Deus, o poder que uniformiza, controla e elimina diferenças. Jerusalém reconstruída simboliza uma humanidade que coopera, escuta, dialoga e reconstrói relações.
Leão XIV recorda que o verdadeiro progresso não está em criar máquinas perfeitas, mas em preservar aquilo que nenhuma inteligência artificial poderá substituir: a consciência, a compaixão, a liberdade, o amor e a dignidade humana.
Num tempo fascinado pela velocidade, pela produtividade e pelo controle, Magnifica Humanitas torna-se um convite urgente à interioridade, ao discernimento e à responsabilidade ética. É uma leitura necessária para todos os que ainda acreditam que a tecnologia deve servir à humanidade — e não a humanidade servir à tecnologia.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB