Medianeira, tenda do encontro com Jesus

A devoção à Medianeira possui uma força singular para falar ao coração. Maria recorda uma verdade anterior a todas as nossas divisões: somos um povo necessitado de encontro. Ela não ocupa o lugar de Cristo nem acrescenta uma mediação paralela à única mediação do Salvador. Sua missão é materna: acolher a graça recebida de Cristo e conduzir-nos para Ele.

É precisamente aqui que o título Medianeira revela sua beleza quando corretamente compreendido. São Paulo afirma que “há um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1Tm 2,5). Toda graça salvadora procede de Deus e nos alcança em Cristo. Maria está inteiramente inserida nesse mistério. Sua mediação é participação materna, dependente e subordinada à única mediação de seu Filho. Ela não é fonte da graça; é a mulher que acolheu a Graça e continua indicando Jesus Cristo.

A cena das Bodas de Caná oferece talvez a mais bela imagem dessa missão. Maria percebe aquilo que falta: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Não resolve sozinha a necessidade, mas a apresenta a Jesus. Depois volta-se aos servidores e pronuncia sua grande palavra de discípula: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Eis a Medianeira: atenta às necessidades humanas, intercessora junto ao Filho e catequista que conduz à obediência da fé.

Por isso, podemos contemplá-la como tenda do encontro. A imagem possui raízes bíblicas profundas. No deserto, a tenda indicava a presença de Deus que caminhava com seu povo. No Novo Testamento, porém, algo ainda maior acontece: o Verbo “armou sua tenda entre nós” (cf. Jo 1,14). E isso aconteceu no ventre de Maria. Antes que houvesse templos cristãos, houve aquela mulher que, com seu sim, acolheu o Filho de Deus e lhe ofereceu sua humanidade. Maria tornou-se, de maneira única, espaço humano de acolhida do Mistério.

A tenda não retém aquele que nela habita. Maria recebe Cristo para entregá-lo. Em Belém, apresenta-o aos pastores e aos povos representados pelos Magos; em Caná, conduz os servidores à palavra do Filho; no Calvário, permanece junto à Cruz; em Pentecostes, encontra-se em oração no coração com a comunidade que receberá o Espírito para partir em missão. A existência de Maria possui esse movimento: acolher, guardar, oferecer.

A devoção mariana não deveria produzir fechamento devocional, mas fraternidade. Maria reúne porque é Mãe. Sob sua presença materna podem encontrar-se pessoas de diferentes regiões, culturas e condições sociais. Ela nos educa para uma Igreja que não pergunta primeiro de onde alguém vem, mas reconhece naquele que chega um irmão pelo qual Cristo também entregou a vida.

Há ainda uma dimensão profundamente social no verdadeiro culto mariano. A mulher do Magnificat não contempla a história com indiferença. Ela canta o Deus que olha para os humildes, manifesta sua misericórdia e sacia os famintos. A espiritualidade mariana autêntica possui, portanto, olhos abertos para as dores humanas. Quem aprende com Maria a acolher Cristo aprende também a reconhecer Cristo no irmão.

Nesse sentido, Medianeira é um título que pode ajudar a Igreja a redescobrir sua própria vocação. Precisamos ser uma Igreja que aproxima, reconcilia e conduz ao encontro com Cristo. Uma Igreja que saiba perceber, como Maria em Caná, onde está faltando o vinho da esperança, da fraternidade, da justiça, da fé e do sentido de viver.

Maria permanece no meio do povo como tenda aberta para o encontro, mas nunca como ponto final da caminhada. Sua grandeza consiste justamente em desaparecer diante daquele que apresenta. Ela intercede por nós em nossas necessidades, sustenta nossa esperança e repete, geração após geração, sua única direção: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” Maria não ocupa o caminho entre nós e Cristo; caminha conosco até Ele.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB