Artigos, ATUALIDADES › 24/09/2020

Mês da Bíblia: o livro do Deuteronômio

O mês de setembro é dedicado à Bíblia e as comunidades cristãs, todos os anos, são motivadas a se aprofundarem em um dos livros da Sagrada Escritura. É uma forma que permite uma proximidade maior com esta Palavra que brota do amor de Deus por toda a humanidade. Neste sentido acolhemos também as orientações que o Apóstolo Paulo deu ao jovem Timóteo: “desde a infância conhece as Sagradas Escrituras, que podem dar-lhe a sabedoria que leva à salvação pela fé em Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra” (cf. 2Tm 2,15-17). Neste ano o desafio é ler, estudar, meditar e rezar o livro do Deuteronômio.

O livro do Deuteronômio, um dos cinco primeiros livros da Bíblia, um conjunto denominado Pentateuco. É traduzido como segunda lei (deutero –nomos), descrevendo um longo processo histórico do povo Israelita marcado por lutas, tensões e realizações, na busca de fidelidade ao Deus Javé. Foi denominado segunda lei porque a primeira é considera a Lei de Deus, apresentada a Moisés no Monte Sinai, período final da travessia do deserto em superação da escravidão do Egito.

O que está escrito no texto revela uma longa história de enfrentamento do povo Israelita, consequentemente expressa na redação em suas diferentes fases. Hoje estamos acostumados à elaboração célere de uma obra e geralmente com um só autor. Muitos textos bíblicos e, entre eles, o livro do Deuteronômio, demoraram anos para serem escritos ou finalizados. Alguns pesquisadores afirmam que o livro levou quase quatro séculos para ser escrito, de 750 a.C. a 400 a.C. Neste tempo o povo Israelita viveu profundas transformações nos campos econômicos, social e religioso.

O ponto de partida da elaboração da obra foi um pequeno escrito denominado Livro da Lei (2RS 22, 8-10), encontrado ao acaso durante a limpeza do Templo de Jerusalém, no período do reinado de Josias (622 a. C). A leitura do texto encontrado, considerado Palavra de Deus, lembrava a necessidade de uma mudança radical daquele povo sob o risco de atraírem a ira de Javé pela infidelidade a sua Lei. Possivelmente o texto encontrado fora escrito cem anos antes pelo esforço dos levitas itinerantes do Reino do Norte, não bem vistos nos círculos de poder ao redor dos reis.

Após a morte de Salomão (931 a.C.) aconteceu uma divisão no povo Israelita surgindo dois Reinos: o Reino do Norte tendo como capital a Samaria e o Reino do Sul tendo como capital Jerusalém. O texto encontrado recolheu a pregação dos profetas do Reino do Norte (Elias, Eliseu, Amós e Oseias) que chamavam a atenção para os processos de opressão, corrupção, idolatria e afastamento do povo do Deus Javé (cf. Am 5, 10-13; 21-27). Esta realidade era velada pela falsa noção de prosperidade do Reino do Norte.  Os profetas falavam em nome do projeto iniciado no Êxodo, rompido com o advento da monarquia, e agravado pelas injustiças e desigualdades econômicas sustentadas pelos reis e a elite.

A diversidade de estilos e propostas encontradas no texto, até mesmo em contradição entre si, diz respeito ao tempo levado para concluir o escrito e aos diferentes momentos vividos pelo povo de Deus. Destacamos a derrocada do Reino do Norte (722 a.C) tendo como consequência migração de muitos deste reino para o Reino do Sul. Também foi marcante exílio na Babilônia, sobretudo pela violência imposta aos governantes e lideranças, colocando fim ao Reino do Sul (586 a.C.), deixando em Jerusalém um pequeno resto (cf. Jr 14, 17-21;Is 10,20).

Neste tempo aconteceram duas reformas no Reino do Sul, a saber, a reforma de Ezequias (716-701 a.C.) motivada pela chegada dos imigrantes do Reino do Norte e o desejo de expansão; também a reforma de Josias (620-609 a.C) praticamente a continuidade da política de Ezequias.

O texto está dividido da seguinte forma: primeiro discurso (Dt 1,1-4,43, que trata da introdução ao Livro da Lei; segundo discurso (Dt 4,44-28,68), versando sobre a Lei propriamente dita; terceiro discurso (Dt 28,69-30,20), do que se destaca que o objetivo da lei é escolher e proteger a vida; apêndice (Dt 31-34,12), apresenta o final da vida de Moisés e alguns cânticos.

A leitura do texto de Deuteronômio nos leva a interpretar as diferentes épocas e seus desafios; as diferentes escolas bíblicas e seus propósitos; e as respostas que o povo buscava dar diante do desafio de manter a fidelidade a Lei de Deus. Apresenta o posicionamento do povo diante desta Lei compreendida como inspiração divina a serviço da humanidade, especialmente os pobres, expresso, no lema proposto para estudo deste ano, “abre a mão para teu irmão” (Dt 15,11), objeto de reflexão do próximo artigo.

Pe. Ari Antonio dos Reis