Missão: a fé que se põe a caminho

A fé cristã nasce de um encontro, mas esse encontro não nos deixa permanecer onde estamos: imediatamente abre um caminho de seguimento e missão. Jesus chama os discípulos para estarem com Ele e, depois, os envia. Uma das tentações de nosso tempo é imaginar a fé como um refúgio individual: creio para encontrar paz, consolo, segurança, respostas para às minhas necessidades e inquietações. Tudo isso pode fazer parte da experiência religiosa, mas o Evangelho nos leva adiante. Cristo não entra em nossa vida apenas para habitar conosco; vem também para nos fazer sair de nós mesmos e caminhar ao encontro dos outros. Aquele que encontrou o Senhor recebe, juntamente com a alegria da fé, a responsabilidade de compartilhá-la.

O próprio Jesus é o modelo. Ele é o grande missionário do Pai. Não espera que todos cheguem até Ele: percorre estradas, entra nas casas, senta-se à mesa com os pecadores, toca os enfermos, procura a ovelha perdida e vai ao encontro dos que estão em outras aldeias. Sua missão tem movimento porque seu amor tem destinatários. Ninguém é anônimo para Ele. A missão cristã começa precisamente quando aprendemos a olhar com os olhos de Jesus e a reconhecer aqueles que, tantas vezes, passávamos sem ver.

Por isso, ser missionário não significa necessariamente partir para lugares distantes. Há distâncias que se medem em poucos metros, mas revelam abismos de solidão, indiferença e sofrimento. Há alguém sozinho na casa ao lado; um jovem que já não encontra sentido na fé; uma família que se afastou da comunidade; um enfermo esperando uma visita; alguém que jamais ouviu falar de Cristo de maneira capaz de tocar seu coração e iluminar sua existência. As periferias também começam à nossa porta.

As próprias Diretrizes da ação evangelizadora reconhecem, entre os desafios atuais, o enfraquecimento do sentido comunitário, a crise do estado permanente de missão e um espírito missionário ainda tímido. A pergunta pastoral, portanto, precisa mudar: não apenas “quem veio?”, mas “a quem ainda precisamos chegar?”

E quem deve partir? Todo batizado. A missão não é tarefa reservada a alguns especialmente disponíveis. O Batismo nos incorpora a Cristo e, por isso, nos insere também em sua missão. Não somos primeiro cristãos e, depois, eventualmente missionários. A dimensão missionária pertence à própria identidade de quem recebeu a graça batismal. O lugar próprio da missão dos leigos é também a vida cotidiana — a família, o trabalho, a educação, a política e o mundo digital. Há ambientes aos quais o Evangelho somente chegará pela presença de cristãos que ali vivem. Nesses espaços, a fé se anuncia não apenas por palavras, mas pela coerência da vida, pela honestidade das escolhas, pela capacidade de servir e pela coragem de testemunhar a esperança.

Isso exige superar uma compreensão excessivamente territorial da missão. Hoje, alguém pode estar fisicamente próximo de uma igreja e existencialmente muito distante da fé. O território missionário passa também pelas redes sociais, pelas universidades, pelas empresas, pelos hospitais, pelos condomínios, pelas relações familiares e pelos novos modos de viver. O missionário aprende a reconhecer esses caminhos porque sabe que Deus já chegou antes dele.

A imagem da tenda, escolhida pelas Diretrizes, é particularmente feliz. A Igreja firma suas estacas na fé, na esperança e na caridade, e alarga suas lonas para que outros encontrem abrigo, escuta e lugar à mesa. Mas a tenda não pode tornar-se um espaço fechado: quem nela experimenta o acolhimento é também chamado a sair e levar adiante a alegria do Evangelho. Uma Igreja missionária precisa das duas coisas: estacas firmes e lonas distendidas. Sem estacas, perde sua identidade; sem distensão e abertura, conserva para si o tesouro que recebeu para todos.

No fundo, a missão não começa com uma estratégia, mas com uma gratidão: “encontrei Cristo e desejo que você também possa encontrá-lo”. Não se trata de conquistar pessoas, aumentar estatísticas ou impor convicções. Trata-se de oferecer um encontro. Quando isso acontece, a comunidade deixa de perguntar apenas como manter suas atividades e começa a perguntar onde a vida está pedindo nossa presença. Então a Igreja redescobre sua juventude.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB