Artigos, Bispos › 05/06/2020

Não basta encher o freezer

Tenho um amigo na Irlanda, professor universitário, que teve a gentileza de enviar-me uma reflexão do Cardeal português que trabalha no Vaticano como Bibliotecário Apostólico, Dom José Tolentino Mendonça. Baseado nessa reflexão sobre a situação atual da pandemia do coronavírus, elaboro este escrito desta semana:

No imaginário contemporâneo o termo “quarentena” remete-nos para mundos recuados, que a modernidade superou. Quanto muito, podia-se aplicar a alguns casos individuais, onde a gravidade das patologias impunha essa arcana prática securitária. A ideia de países inteiros “em quarentena” constitui uma absoluta estranheza. Não admira, por isso, que a primeira reação seja a de medo e dê lugar às formas mais diversas de expressão de claustrofobia exasperada. Alguns – movidos por motivações religiosas ou por escolhas conscientes de vida – aprenderam a tornar fecunda e solidária a própria solidão e educaram o seu coração nesse sentido, mas tinham que se posicionar muitas vezes contra a corrente. De fato, essa educação, reflete Mendonça, “falta a uma sociedade onde os estímulos maiores vão na direção contrária: na linha do escapismo, do atordoamento consumista, da vida massificada e dispersa”. Por isso, somos convocados como sociedade a uma experiência pedagógica. Que a “quarentena” não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspectos negativos, mas, mesmo com o indesmentível esforço, nos possa ajudar a transmutar o chrónos em kairós. Passamos a vida inteira a repetir que “tempo é dinheiro”e nem nos apercebemos do custo existencial dessa proposição. Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz, nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer. Temos de olhar para a “quarentena” não apenas como um adverso congelamento da vida que nos deixa manietados, elencando de modo maníaco o que estamos a perder. Sairemos mais amadurecidos se a aproveitarmos como um dom, como um espaço prático e aberto, como um TEMPO PARA SER, SERVIR E AMAR (versus um tempo do mero ter, poder e aproveitar-se).

A nossa segurança não pode provir apenas da despensa guarnecida ou do freezer cheio (e como ficam com os pobres?). A vida é mais do que a materialidade necessária à sobrevivência. É isso, mas é maior do que isso. Esta situação de exceção que vivemos representa, assim, também uma oportunidade para refletir sobre aquilo que nos nutre. É que nos alimentamos de tanta falsificação de produtos, reduzindo a vida a um fast-food, de preferência sem refletir muito. É que nos alimentamos de tickets rotineiros e empalidecidos; de ideias-feitas que não deixam lugar a percursos de escuta e de descoberta; de automatismos que pairam como pura abstração; de imagens filtradas que reduzem sempre mais a realidade a uma coisa plana, esvaziando-a da sua natureza áspera, polifônica e concreta; de palavras que, mais do que uma real declaração de presença, se parecem a uma estratégia que nos substrai às chamadas sucessivas que a vida faz.

Aqui não podemos deixar de lembrar o discurso sapiencial que Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, fez no Sermão da Montanha: “Quanto à vossa vida, não coloqueis o cuidado no que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não vale a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestiário. Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, vosso Pai celeste os alimenta. Aprendei dos lírios do campo: não trabalham, nem fiam. No entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só dentre eles” (Mt 6, 25-29).

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo de Pelotas