Artigos, Bispos › 17/12/2021

Natal: A humildade da luz

O Profeta Isaías proclamou: O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu (Is 9,2). Consideremos que toda escuridão do mundo não pode apagar a luminosidade da noite do Natal, que é mais clara que o dia.  Em meio às trevas de nossa condição humana e mortal, nem sempre tomamos consciência do quanto precisamos ser iluminados, curados, e libertos de todo tipo de escravidão. Cristo é o divino curador, o Salvador de todos os males que nos afligem.

O Menino deitado na manjedoura e envolto em faixas é frágil,também precisou ser cuidado. Como pode Deus sujeitar-se a tão grande esvaziamento de sua condição divina?  Só por amor! E um amor que desconcerta, questiona. Deus na carne é um escândalo paradoxal que ainda hoje suscita dificuldades e desvios.

O filósofo Celso, na antiguidade, se questionava: “Filho de Deus um homem que viveu há alguns anos?”. O logos eterno num homem “nascido em uma aldeia da Judeia, de um pobre carpinteiro”?

A primeira grande questão que a fé em Cristo teve que enfrentar não foi a de sua divindade, mas a de sua humanidade. O Natal celebra a Encarnação de Deus.  Aquele que habita uma luz inacessível se fez carne, foi enfaixado, alimentado e cuidado pelo olhar amoroso da Virgem Maria. Ainda sobre a dificuldade de entender esse mistério, escreveu Santo Agostinho na sua obra Confissões, que “Por não ser humilde não compreendi a humildade de Deus”. Somente quem vê a luz em meio às trevas é capaz de reconhecer Deus na carne.

A luz do Natal pode ser contemplada no presépio, como fez São Francisco em 1223, na cidade de Greccio. A representação da cena do nascimento quase sempre reproduz um lugar simples, modesto, pobre; é quase o nada em confronto com o mundo atual, com seus muitos recursos.  Mas naquela gruta de Belém se encontra toda acriação, nela está a razão de tudo isso: os seres humanos: humildes e pobres pastores, sábios e ricos magos do Oriente, de perto e de longe são atraídos ao menino deitado numa manjedoura. Diante Dele, ninguém é maior ou menor: todos são irmãos.  Para chegar ao presépio e reconhecer o que ele de fato representa, é preciso ser humilde.  Ainda hoje, para entrar na Basílica da Natividade, em Belém, a porta é mais baixa do que o normal. Para além das questões que envolvem essa construção, o certo é que somente se abaixando o humano pode encontrar Deus, que se abaixou para habitar esta terra.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo de Santa Maria