“Nem demonizar, nem santificar”: Igreja é chamada a discernir o uso da inteligência artificial

A inteligência artificial já entrou no cotidiano da sociedade e, com ela, surgem novas perguntas para a Igreja: como utilizar essas tecnologias? Quais são seus limites? Como formar comunidades capazes de discernir entre informação e desinformação? E, principalmente, como evangelizar em uma cultura cada vez mais marcada pelo ambiente digital?

Essas questões estiveram entre as discussões do Congresso Teológico Internacional e o VI Congresso Estadual de Teologia, realizado de 24 a 26 de agosto, na PUCRS, em Porto Alegre. Com o tema “De Aparecida ao Sínodo da Sinodalidade: chamado apostólico para uma Igreja missionária”, o evento reuniu reflexões sobre os desafios contemporâneos da Igreja. A abertura contou com Missa celebrada por dom Jaime Cardeal Spengler.

Entre os temas da programação esteve a discussão sobre os impactos da inteligência artificial na sociedade e na Igreja. O jornalista e doutor em Comunicação Social, Moisés Sbardelotto foi um dos palestrantes e refletiu sobre o tema, chamando atenção para a necessidade de a Igreja compreender as transformações tecnológicas sem assumir uma postura de medo ou rejeição.

Em entrevista a Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Porto Alegre, Moisés, afirmou que o estranhamento diante das novas tecnologias não é algo novo. “No âmbito eclesial, as tecnologias sempre assustam um pouco, as novas especialmente”. Para Sbardelotto, porém, é preciso lembrar que a tecnologia já faz parte da vida humana e da própria ação pastoral. “Nós aqui estamos na entrevista com microfone, câmeras, quer dizer, faz parte do nosso cotidiano como pessoas, como sociedade”, exemplificou.

A inteligência artificial, na avaliação do comunicador, provoca preocupação principalmente porque ainda é uma realidade relativamente nova e desconhecida para grande parte da sociedade. Ao mesmo tempo, ela já está presente em diferentes áreas. “É uma tecnologia que está aí entrando na vida da educação, na vida da política, na vida, enfim, e também na Igreja”, destacou.

 

Nem demonizar, nem santificar

Diante desse cenário, Sbardelotto considera que o primeiro passo para a Igreja é buscar compreender a tecnologia. Para ele, a resposta não deve estar nem na rejeição automática nem na aceitação irrestrita, mas “o desafio da sociedade como um todo, mas particularmente da Igreja, é em primeiro lugar entender essa tecnologia, entender o seu funcionamento sem demonizar, mas também sem santificar”, afirmou.

A formação, nesse processo, ganha papel fundamental. O comunicador considera importantes iniciativas que promovam reflexão e estabeleçam orientações sobre o uso da inteligência artificial. Para ele, é necessário discutir “o que pode, o que não pode, como pode”, construindo boas práticas para a utilização dessas ferramentas.

A reflexão também encontra eco no magistério do Papa Leão XIV. Segundo Sbardelotto, em sua primeira encíclica, o Pontífice chama atenção para o fato de que, diante dos avanços tecnológicos, o foco não deve estar apenas na própria tecnologia, mas no ser humano que a utiliza. Para o comunicador, essa perspectiva leva a Igreja a fazer uma pergunta fundamental: “Num tempo de inteligência artificial, que Igreja nós queremos ser?”

Essa formação, explica Sbardelotto, deve fazer parte de uma educação midiática mais ampla. Se a sociedade precisou aprender a lidar criticamente com a televisão, a internet, o celular e as redes sociais, agora também precisa desenvolver essa capacidade diante da inteligência artificial. “É uma forma de construir conhecimento, de compartilhar informações, muito interessante”, observa. Mas, ao mesmo tempo, a tecnologia não pode ser compreendida como um fim em si mesma.

Para Sbardelotto, a questão fundamental é antropológica. Mais do que perguntar o que a inteligência artificial será capaz de fazer, a Igreja precisa olhar para o ser humano que está utilizando essas ferramentas. “Num tempo de inteligência artificial, que Igreja nós queremos ser?”, questiona.

A resposta, em sua avaliação, não passa por uma Igreja que “nega a tecnologia” ou que “demoniza a tecnologia”, mas por uma comunidade capaz de lidar com ela “de forma consciente, crítica e à luz do Evangelho, à luz da evangelização, que é o foco principal”.

 

Jornalismo diante da desinformação

A presença cada vez maior da inteligência artificial na produção e circulação de conteúdos também reacende debates sobre o papel do jornalismo e a responsabilidade de quem produz informação.

Questionado sobre a importância da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, que volta a ser discutido nacionalmente, especialmente diante do atual cenário tecnológico, Moisés Sbardelotto defendeu a retomada da exigência.

Para ele, o contexto social e tecnológico mudou significativamente desde a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), há quase 20 anos, de não exigir o diploma para o exercício da profissão. “Quando essa decisão foi tomada, o contexto social era um, o contexto tecnológico era um, a circulação de informações era diferente. Quase 20 anos depois, a gente tem um cenário em que a desinformação tomou conta”, afirmou.

O avanço da inteligência artificial acrescenta ainda uma nova camada ao problema. Ferramentas capazes de produzir imagens e vídeos cada vez mais realistas tornam mais difícil para o cidadão identificar o que é verdadeiro e o que foi artificialmente produzido. “A gente já não tem como, pelo menos o cidadão comum, fazer uma leitura do que é realmente verdade ou do que é mentira”, destacou.

Nesse contexto, Sbardelotto considera que a formação profissional do jornalista ganha ainda mais importância. “O diploma hoje, o valor do diploma se torna fundamental, inclusive do ponto de vista da produção da informação, para que a sociedade tenha uma garantia de que essa pessoa está habilitada a produzir informação com a qualidade que só o jornalista tem”, afirmou.

Para o comunicador, a questão não é limitar a liberdade de expressão, mas compreender que liberdade também pressupõe responsabilidade. “Não é qualquer expressão, é uma liberdade sem nenhum tipo de freios”, ponderou.

A informação jornalística, segundo ele, deve estar associada à ética, aos fatos e ao interesse público. “O jornalista é aquele profissional que produz informação com ética, pautada pelos fatos e com interesse público, com esse respeito também ao leitor, ao ouvinte, ao espectador”, afirmou.

Por isso, ele considera que a discussão sobre o diploma ultrapassa os interesses da própria categoria profissional. Em um ambiente de intensa circulação de conteúdos e desinformação, estaria em jogo também a qualidade da informação disponível para a sociedade e a própria democracia.

 

O papel da Pascom em tempos eleitorais

Os desafios da comunicação também se tornam particularmente importantes para as equipes da Pastoral da Comunicação (Pascom), que atuam diretamente nas redes sociais de paróquias e comunidades. Especialmente em períodos eleitorais, como o que estamos vivenciando, é preciso estar atento a alguns cuidados e seguir as orientações da CNBB.

Conforme destacou Sbardelotto, a Igreja não pode se afastar das questões políticas e sociais, porque os cristãos fazem parte da sociedade. Ao mesmo tempo, ressaltou que a participação da Igreja não significa uma defesa partidária. A escolha de partidos e candidatos, segundo ele, pertence à consciência e à liberdade de cada pessoa. “A Igreja não faz opção partidária, mas ela tem opções sociais muito claras”, explicou.

Nesse sentido, o comunicador aponta para princípios presentes na Doutrina Social da Igreja, reafirmados pelo Papa Leão XIV, como a dignidade humana, o bem comum, a solidariedade, entre outros. Para Sbardelotto, esses princípios ajudam a orientar a atuação dos comunicadores católicos durante o período eleitoral, contribuindo para a formação e a conscientização dos fiéis, sem indicar partidos ou candidatos.

 

Comunicação a serviço da evangelização

Por trás das discussões sobre inteligência artificial, jornalismo, redes sociais e comunicação institucional está, para Sbardelotto, uma questão fundamental: qual é a finalidade da comunicação da Igreja? A resposta, segundo ele, está diretamente relacionada à própria missão evangelizadora.

“A Igreja existe para evangelizar”, lembrou o comunicador, retomando uma das ideias presentes nas reflexões do congresso. Para ele, essa consciência precisa orientar também o trabalho daqueles que atuam na comunicação eclesial. “Como comunicadores, como pasconeiros, o nosso desafio é que a gente tenha esse objetivo, que é evangelizar, é anunciar o Reino de Deus com alegria”, afirmou.

Isso significa que a comunicação da Igreja não pode se limitar à produção de notícias, releases ou conteúdos para as redes sociais. Essas ferramentas são importantes, mas estão a serviço de algo maior. “Não é só transmitir informação, fazer as notícias, os releases, tudo isso é importante, mas no fundo a gente se coloca a serviço desse processo de evangelização”, explicou.

A alegria, porém, não é compreendida apenas como uma característica da linguagem ou da comunicação. Para Sbardelotto, ela nasce da própria experiência de fé de quem comunica. “Para ter essa alegria, nós mesmos precisamos fazer essa experiência de um Deus que é amor, da pessoa de Jesus que vem a nós, se faz próximo de nós”, afirmou.

É essa experiência, segundo ele, que dá ao comunicador “toda a força, toda a garra, toda a energia” para colaborar com a missão evangelizadora.

Para o comunicador, o caminho passa pelo conhecimento, pela formação, pelo discernimento e pela responsabilidade. Sem medo da tecnologia, mas também sem deixar de questioná-la. E, sobretudo, sem perder de vista a finalidade maior da comunicação eclesial: colocar-se a serviço da evangelização.

 

Por: Greice Pozzatto / Jornalista da Arquidiocese de Porto Alegre