Artigos, Bispos › 19/03/2020

O homem vê a aparência, Deus vê o coração

A narração da escolha de Davi para Rei de Israel narrada pela 1ª Leitura deste Domingo (1 Samuel 16,1.6-7,10-13) é, em certo modo, surpreendente. Partindo da confusão do reinado controverso de Saul, e face às incertezas de um Reino que ameaçava não permanecer, o profeta Samuel é enviado à casa de Jessé para, de entre os seus filhos, escolher e ungir o novo Rei de Israel. Se a escolha sobre algum dos jovens filhos de Jessé já representava alguma novidade e certa incerteza, a verdade é que tudo se torna contraditório quando nenhum dos filhos de Jessé ali presentes corresponde aos desígnios de Deus. O único filho que ali não se encontrava, o mais novo e que andava pastoreando, era a escolha de Deus a quem o profeta era enviado a ungir e a proclamar como Rei de Israel. A expressão usada por Deus ao profeta traduz, com exatidão, os critérios do Senhor: “o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração”. O modo como Deus escolheu Davi para Rei de Israel manifesta, com clareza, o modo como o Senhor faz as suas escolhas. Os critérios humanos são, na maior parte das vezes, determinados pelas aparências dos outros, com critérios que partem do que nos pode impressionar, seduzir ou que mais se destaque. De um modo totalmente distinto é o olhar de Deus, o qual centra a sua atenção na pessoa em si mesma, no seu coração, nas possibilidades da sua vida, na perspectiva da santidade e da salvação. Deste modo, a unção e a escolha de David iluminam a escolha e a unção que, também nós, recebemos no dia do nosso Batismo.

O Evangelho (João 9,1-41) não nos fala de alguém importante, mas de um miserável cego de nascença que jazia no caminho por onde Jesus passava. Partindo da mentalidade daquele tempo, o referido cego é um marginal e um excluído da sociedade, não só pela desgraça da sua incapacidade visual, mas também pela interpretação feita sobre a causa da sua doença. Assim sendo, a sua condição de excluído e de incapacitado, fazia do cego uma pessoa desprezada. Diante desta tremenda injustiça e exclusão, é Jesus quem tem a iniciativa, não só de abordá-lo, mas também de reabilitá-lo moralmente (explicando que a cegueira não é um castigo divino), de curá-lo e de enviá-lo. Depois de ter sido inquirido pelas autoridades judaicas, é procurado por Jesus e aí dialogam. Deste encontro ele chega à conclusão de que Jesus é o Filho de Deus. A narração evangélica não só narra uma cena muito marcante de quem foi curado por Jesus, como também permite compreender o modo como acontece a experiência da fé na nossa vida. Tal como aconteceu com o cego, não nos basta sermos curados e serem salvaguardados os nossos interesses. Do encontro com Jesus Cristo tem de nascer uma vontade e uma necessidade expressa de querer saber quem Ele é e entrar numa profunda relação de intimidade com o Senhor. O ato de acreditar, de poder professar como o cego “Eu creio, Senhor”, não depende apenas de vermos satisfeitos os nossos interesses e necessidades, mas de conhecermos Jesus, experimentarmos a Sua vinda à nossa vida e, em consequência, fazer da nossa vida um lugar de contínua relação íntima com Jesus.

Aprendamos com Jesus a nos debruçarmos sobre os sofrimentos e as necessidades dos irmãos.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen