O livro de Daniel no mês da Bíblia

Há livros da Escritura que parecem ter sido escritos para tempos tranquilos; Daniel, ao contrário, fala com especial força quando a história se torna difícil. Nascido da experiência de um povo submetido a poderes estrangeiros, ameaçado em sua identidade e provado em sua fidelidade, o livro procura responder a uma pergunta que atravessa os séculos: como permanecer fiel a Deus quando tudo ao redor parece afirmar o contrário?

Daniel e seus companheiros vivem entre impérios, convivem com outra cultura, aprendem sua língua e seus conhecimentos, mas conservam o coração voltado para o Deus Altíssimo. Sua fé não os retira do mundo: ensina-lhes uma maneira nova e livre de nele permanecer. Por isso, a escolha de Daniel para o Mês da Bíblia de 2026 é particularmente significativa.

Também nós vivemos mudanças rápidas, conflitos, polarizações, crises de confiança e diferentes formas de poder que pretendem ocupar todo o horizonte da existência. Nesse contexto, a tentação pode ser ceder ao medo, acomodar-se ou transformar a fé em refúgio fechado e defensivo. Daniel indica outro caminho: identidade sem isolamento, diálogo sem perda da verdade, presença no mundo sem submissão aos seus ídolos. Ele ensina que é possível participar da sociedade, exercer responsabilidades e dialogar com a cultura sem negociar aquilo que pertence a Deus.

A linguagem apocalíptica do livro precisa ser compreendida nessa perspectiva. Ela não foi criada para alimentar curiosidades sobre catástrofes ou calcular datas do fim do mundo. Nasceu para fortalecer a fé e sustentar a esperança de um povo provado. Quando a realidade parece dominada por forças violentas, a fé aprende a enxergar mais profundamente. Os impérios passam. Os poderosos passam. As estruturas que parecem invencíveis também passam. Deus, porém, permanece. Por isso, o lema escolhido para 2026 toca o centro da mensagem de Daniel: “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14).

Esse olhar não conduz à passividade. Daniel é homem de oração e, justamente por isso, homem de discernimento, coragem e responsabilidade. Sua fidelidade ao Deus único torna-se compromisso com a verdade e a justiça. Diante da mentira, permanece íntegro; diante da ameaça, não abandona a oração; diante do poder, conserva a liberdade interior. Sua força não nasce da ausência de conflitos, mas de uma relação com Deus cultivada antes que chegue a provação. É a espiritualidade de quem não improvisa a fé diante da crise, porque edificou a própria vida sobre a rocha.

Para os cristãos, porém, Daniel abre ainda um horizonte maior. Ler Daniel cristãmente é aprender a olhar a história a partir de Cristo: nenhum poder humano é absoluto, nenhuma noite é definitiva e nenhuma fidelidade vivida por amor é inútil.

Daniel conduz ainda a esperança até sua fronteira extrema: a morte. A afirmação da ressurreição em Dn 12 abre uma perspectiva decisiva na revelação bíblica. Se Deus é verdadeiramente Senhor da história, sua fidelidade não termina diante do túmulo. A esperança bíblica alcança a pessoa inteira e proclama que aqueles que permanecem em Deus estão destinados à vida. Essa esperança encontrará sua plenitude na morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Meditar o livro de Daniel no Mês da Bíblia de 2026  é reaprender a olhar a história com os olhos da fé: sem absolutizar os poderes do presente; atravessar as crises sem entregar o coração ao medo; dialogar com o mundo sem perder a identidade; permanecer na verdade sem transformar a fé em intolerância; e esperar quando os sinais visíveis parecem recomendar o desânimo. Daniel nos recorda que a esperança cristã não consiste em negar a dureza da história, mas em atravessá-la na certeza de que Deus permanece fiel e seu Reino não terá fim.

 

+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB