Artigos, Bispos › 25/09/2020

O suicídio na era do vazio

Desde a década de 90, a Organização Mundial da Saúde (OMS) trata o suicídio como um problema de saúde pública. O suicídio é a morte que nasce de dentro, que mata a pessoa primeiro interiormente, para, depois, manifestar-se como gesto externo. O gesto do suicidado gera muitas aflições, questionamentos e dor à família e aos amigos que ficarão procurando o significado desse fim trágico.

As atuais pesquisas demonstram a extrema complexidade das motivações ou causas do comportamento suicida, que passam por fatores mentais, psicológicos, afetivo-emocionais, biológico-genéticos, etiológicos, socioeconômicos, culturais e religiosos.

Esse é um fenômeno no qual as causas e motivações individuais estão necessariamente associadas à determinadas relações sociais fundamentais. A estrutura social tem decisiva influência sobre o indivíduo, podendo proteger e ajudar o sujeito a viver, ou levá-lo à busca da autodestruição.

Nas sociedades em que a exclusão e o individualismo dominam, o suicídio agrava-se consideravelmente. Ao acentuar o individualismo, as sociedades regidas por uma lógica narcísica, multiplicam as iniciativas autodestrutivas. Numa sociedade marcada pela banalização e pelo relativismo, o suicídio, assim como o próprio fato da morte, torna-se um tabu, evitando-se falar sobre ele.

Produto da ordem alienada que a sociedade atual impõe ao indivíduo, o suicídio é hoje a expressão de uma crise de despersonificação. É o sujeito dessubstancializado, perdido no turbilhão de informações, vítima da overdose de opções de consumo que a sociedade tecnocientífica oferece para se atingir a felicidade, porém, uma felicidade momentânea, hedonista e eminentemente individual. Chega-se a dizer que se vive a era do vazio, numa atmosfera de várias opções de sentido e de ética, mas com dificuldades de se garantir o bem comum.  O indivíduo pós-moderno move-se sem um horizonte último, capaz de orientar a vida entre altos e baixos, ganhos e perdas.

A estrutura, o ambiente e a educação familiar, o senso de pertença à comunidade e o cultivo da espiritualidade são fundamentais para desenvolver níveis de felicidade que diminuam o instinto autodestrutivo. Aqui entram a ética e o cuidado para pensar preventivamente, atuando no sistema educacional, reconstruindo sentidos, resgatando valores, autorizando a expressão de sentimentos e pensamentos e fortalecendo os vínculos.

Dom Leomar Antônio Brustolin, bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre