Artigos, Bispos › 22/07/2019

O valor da oração firme e humilde

Na primeira leitura deste Domingo (Genesis 18,20-32), Abraão intercede não só pelos justos e inocentes, mas também pelos habitantes da cidade pecadora que, com as suas perversidades, originaram a própria ruína. O Senhor Pai de bondade está disposto a atender a intercessão de Abraão e a perdoar. O dramático deste relato é que nem dez justos se encontram naquela cidade.

Este diálogo leva-nos a refletir sobre o valor da oração firme e humilde e conduz-nos à infinita misericórdia de Deus, mais disposto ao perdão que ao castigo, como Jesus nos ensina na oração do Pai Nosso, como nos relata o Evangelho deste Domingo (Lucas 11, 1-13).

Os discípulos ao verem Jesus orar, pedem-Lhe que os ensine a rezar. A oração que Ele lhes propõe constitui uma síntese de toda a mensagem cristã. Nela se reflete o conteúdo da própria fé e o rosto de Deus misericordioso no qual se acredita. Ele é o Pai com Quem se pode dialogar.

O Seu nome é santificado ou glorificado quando a sua salvação chega ao homem e este exulta de alegria e reconhecimento quando um coração é liberto do ódio, um doente recupera a saúde ou alguém restabelece a harmonia e a paz.

A nossa súplica não muda a atitude de Deus, mas sim o nosso coração, tornando-o disponível para acolher o seu Reino neste coração transformado e disposto a colaborar no Seu projeto de salvação da humanidade.

Alimentação, vestuário, casa, saúde… são necessidades básicas de todos os homens. Ao pedirmos o “pão”, colocamo-nos num constante estado de exame interior que nos recorda que essas necessidades básicas não são só para nós mesmos, mas para todos. Isto manifesta-se na vontade de o produzir, trabalhando para alcançar tal finalidade, sem qualquer sombra de egoísmo.

Os sentimentos de amor para com o próximo devem, no cristão que reza, fazer esquecer as ofensas recebidas e alimentar a reconciliação com quem tem algo contra si, pois só será atendido por Deus na medida em que for misericordioso com os outros.

Os problemas, as dificuldades, os dissabores podem perturbar-nos e asfixiar em nós a semente da Palavra de Deus. Por isso, pedimos para não nos deixar cair na tentação de abandonar a lógica do Evangelho para seguir a lógica das seduções deste mundo.

Muitas vezes, porém, não nos sentimos atendidos por uma razão muito simples: não sabemos rezar. Rezar significa sair da escuridão de nós mesmos e nos abrirmos ao diálogo íntimo de amor com o Pai, tal qual somos: cheios de desejos e boa vontade, mas também limitados e pobres.

Ao encetarmos tal diálogo, saímos de nós mesmos e abrimo-nos a Deus, tornando-nos sensíveis às necessidades dos irmãos

Mortos por causa do egoísmo, isto é, do próprio pecado, voltamos à vida porque nos unimos a Cristo pelo batismo, como nos diz S. Paulo na segunda Leitura de hoje (Colossenses 2, 12-14).

A graça batismal, que nos fez morrer para o pecado, é um apelo constante a renunciarmos à imperfeição, para nos unirmos ao Senhor participando da vida nova de Cristo ressuscitado. Deste modo, nos tornaremos ativos colaboradores com o dom de Deus nestes caminhos do mundo, que nem sempre são fáceis e agradáveis, mas exigem esforço, renúncia e sacrifício.

Para atingir esta adesão interior à vontade do Senhor e ver com os olhos de Deus os acontecimentos deste mundo, precisamos de rezar, num diálogo permanente com o Pai durante toda a nossa vida.