Artigos, Bispos › 31/03/2022

Os frutos do perdão!

Tempo forte da liturgia, a Quaresma nos conduz à aproximação e intimidade com o Cristo sofredor. É um tempo muito significativo e profundo, que nos convida à meditação da palavra, à oração, ao silêncio, à abstinência. Estamos num tempo de preparação, de reflexão, um tempo propício para acompanharmos a vida de Cristo e toda a sua trajetória de doação e amor.

Neste ano C, no qual meditamos o evangelho de Lucas, iniciamos o percurso quaresmal contemplando a revelação da glória do Filho amado do Pai, velada pela sua humanidade, e para a qual conduz os que se unem a ele (evangelho do primeiro e segundo domingo). A seguir, no evangelho dos três domingos seguintes, encontramos um itinerário de conversão que conduz a Deus, o Pai de misericórdia. Em vez de condenar os culpados, como fariam homens sem piedade, acolhe de braços abertos os pecadores que voltam para ele.

Este itinerário faz-nos meditar de modo especial sobre o perdão. Qual é o verdadeiro significado do perdão? Quando e por que devo perdoar? Como devo agir após receber o perdão de Deus e dos irmãos? São inúmeras as reflexões e indagações que podemos nos fazer.

Na Bíblia aparecem inúmeras vezes o tema do perdão e o verbo perdoar. Recordemos especialmente o capítulo 18 do evangelho de Mateus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21) Não sete, mas setenta vezes sete foi a resposta de Jesus, ou seja, infinitamente. Na comunidade de Jesus não existe limite para o perdão, pois a vida cristã baseia-se no amor e na misericórdia. Como recebemos o perdão maior do Pai, não podemos impor limites ao perdão que damos aos irmãos (cf. Parábola do filho pródigo, Lc 15,11-32).

Outra passagem importante a recordar é o capítulo 6 de Mateus, quando Jesus nos ensina a rezar ao Pai: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). Mais tarde o termo “dívidas” foi substituído por “ofensas” na oração quotidiana, mas mantém-se o sentido de que o perdão envolve reciprocidade e uma resposta concreta. Quando recebemos o perdão, não podemos ficar indiferentes. Devemos mudar de atitude, devemos ter ações que demonstrem a nossa gratidão e felicidade por ter sido perdoado. O perdão só passa a ter verdadeiro significado quando o perdoado se arrepende e visivelmente demonstra isso.

No grego, língua na qual o Novo Testamento foi escrito, há dois vocábulos que são traduzidos como perdoar: aphiemi, que significa “deixar de lado”, e apoluo, que quer dizer “libertar, colocar em liberdade”. Perdoar tem, assim, múltiplos significados: escolher abrir mão de uma dívida emocional que temos contra outra pessoa; um processo que implica trabalharmos nossas reações interiores; o fruto de uma decisão, não de um sentimento; restaurar os laços quebrados; concordar que o amor de Deus é maior do que qualquer limitação humana; etc.

O maior e primeiro perdão, no entanto, é o que recebemos de Deus. Através do sacrifício de Cristo somos perdoados e redimidos, somos acolhidos no amor de Deus. Uma das grandes riquezas que a Igreja Católica possui é o sacramento da Reconciliação, que nos recorda constantemente este amor incondicional de Deus que nos perdoa. Ao confessarmo-nos, aceitamos as nossas culpas e pecados, reconhecemos que somos limitados e necessitamos da ajuda de Deus para agir de acordo com o Seu projeto.

O tempo da Quaresma é o mais propício para procurarmos a Reconciliação, por isso fica aqui o convite: medite sobre o perdão, faça um exame de consciência sobre a sua vida e atitudes e, se possível, procure um sacerdote para confessar-se ou simplesmente pedir uma orientação espiritual. Desse modo a sua preparação para a Páscoa será muito mais frutífera e significativa.

Ir. Darlei Zanon, religioso paulino