Artigos, Bispos › 22/09/2020

Papa Francisco e o Domingo da Palavra de Deus

Com a Carta Apostólica “Aparuit Illis” (= Apareceu-lhes), o Santo Padre instituiu o 3° Domingo do Tempo Comum como o Domingo da Palavra de Deus. Com esta iniciativa, o Papa responde aos muitos pedidos para celebrar “o Domingo da Palavra de Deus em toda a Igreja e com unidade de intenções… Seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus” (n. 2-3). A carta revela uma clara intenção ecumênica ao instituir este domingo e sugere formas para chamar a atenção para a importância da proclamação da Palavra de Deus na Liturgia, como a entronização do texto sagrado, proclamação solene, valorização da homilia como serviço à Palavra, celebração do rito do Leitorado.

O Papa Francisco recomenda que a Bíblia chegue às mãos do povo (Leitura Orante ou outras formas de leitura e oração), pois ela “é o livro do povo do Senhor… A Palavra de Deus une os fiéis e faz deles um só povo” (n. 4). O Santo Padre volta a dar importância à homilia, como oportunidade pastoral que não pode ser perdida, pois ela é forma privilegiada para tornar a Palavra acessível à sua comunidade, com linguagem simples e adaptada à vida diária. Seja bem preparada, não demasiadamente longa, falando com o coração para os corações dos fiéis (cf. n. 5).

Inspirando-se no texto dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35), o documento recomenda aos catequistas “familiaridade e estudo das Sagradas Escrituras, de modo que lhes permitam promover um verdadeiro diálogo entre aqueles que os escutam e a Palavra de Deus” (n. 5-6). Em seguida, o texto do Papa faz a relação indivisível entre a Sagrada Escritura e os Sacramentos, sobretudo a Eucaristia. Os Sacramentos são introduzidos e iluminados pela Palavra: “Temos urgente necessidade de nos tornarmos familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos fiéis… Cristo Jesus bate à nossa porta através da Sagrada Escritura; se ouvirmos e abrirmos a porta da mente e do coração, então Ele entra na nossa vida e permanece conosco” (n. 8).

A carta ainda destaca a importância fundamental do Espírito Santo, pois ele “transforma a Sagrada Escritura em Palavra viva de Deus, vivida e transmitida na fé do seu povo santo” (n. 9). Por isso a Palavra permanece sempre nova: “Hoje cumpriu-se esta Palavra da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 21); e a torna próxima de nós: “Está bem perto de ti, está em tua boca e em teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30, 14) (n. 12 e 15). Ao concluirmos nossa mensagem de hoje, nossos leitores ou ouvintes poderiam perguntar: – “Mas nós já não temos o mês de setembro, dedicado à Bíblia (1978), e o Domingo da Bíblia, no final do mesmo mês do ano (antes era 30/09: São Jerônimo)?”

Podemos responder que sim: a Igreja do Brasil já tem essa tradição, dentro dos meses temáticos (agosto, setembro, outubro), e certamente vai continuar a evidenciá-lo durante o ano. A Carta Apostólica do Papa Francisco dá novo destaque e aprofundamento ao que já é tradição nossa e vai ajudar-nos a valorizar ainda mais as diversas formas de celebração da Palavra de Deus, como ocasião privilegiada de encontro com o Senhor (VD 65; DAp 253 e DGAE 2019-2023, n. 88). O 3° Domingo do Tempo Comum, instituído em nível universal como Domingo da Palavra de Deus, certamente vai ajudar ainda mais para que nos alimentemos constantemente com a riqueza de sua Palavra na liturgia e na vida diária. E no Brasil, setembro continuará também a ser “O Mês da Bíblia”.

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul