Partilhar brota em nós comunhão

“Eis o tempo de conversão e de salvação”, cantamos neste período quaresmal. De fato, a Quaresma tem essa pedagogia de revisão de vida, avaliação da caminhada, parada pedagógica, correção de rota, melhor compreensão da meta… Um tempo favorável. Nossa fragilidade humana nos faz esquecer os compromissos assumidos pelo Batismo, quando nos tornamos povo de Deus, Igreja, assembleia de vocacionados e vocacionadas. São tantas as tentações que nos rodeiam, mas, com elas, poderemos aprender ou reaprender a olhar o essencial, amadurecer!

Jesus, com seu jeito simples de falar e ensinar, utilizando-se de imagens, parábolas, apresenta a tristeza do pastor que sente falta de uma ovelha em seu redil. Em cálculos matemáticos, um porcento de perda. Foi o suficiente para que deixasse as 99 e fosse procurar a perdida. Jesus conta a parábola em resposta aos murmurinhos, aos sussurros dos fariseus, que o percebiam dialogando com os pecadores e cobradores de impostos/publicanos. Num contexto em que o toque ao impuro o tornaria impuro, ou estar com pecadores o tornaria pecador, era como se estivessem afirmando que Jesus também era um pecador, impuro. “Este homem recebe pecadores e come com eles”, está na premissa das três parábolas que Jesus utiliza naquele contexto (Lc 15,2), ovelha perdida, moeda perdida, filho perdido (filho pródigo).

Pois bem, as conclusões dessas três parábolas são idênticas: alegria ao recuperar o perdido! Esforçar-se para não deixar nada se perder, não desanimar frente aos desafios do cotidiano, testemunhar a alegria de ajudar o necessitado, testemunhar esperança, acolhida, amor, misericórdia e vida…

Reconhecer nossa fragilidade e saber que temos um Deus misericordioso nos faz gritar, rezar, pedir socorro, ajuda. A ele suplicamos, a ele voltamos, desejosos de um novo início, uma nova chance, uma nova vida, perdão, reconciliação.

Na última quarta-feira iniciamos o Tempo da Quaresma. Serão 40 dias até o Domingo de Ramos, celebrado em 29 de março. 40 dias de oração, reflexão, exercícios espirituais e, claro, penitência e caridade! A Semana Santa, neste ano, vai do dia 30 de março até 04 de abril, sábado da Vigília. A Festa da Páscoa será no Domingo, dia 05 de abril.

Oração, Penitência e Caridade. Um tripé! Sabemos que a oração, quando é autêntica, quando é bem feita, acaba por levar o orante à caridade; é impossível dialogar com Deus e se fechar às necessidades dos irmãos e irmãs. Se chamamos Deus de “Pai nosso”, isso deve nos levar à compreensão de que somos uma grande família! A oração é fundamental para não esquecermos disso! Oração e caridade caminham juntas! Fé e obras, dizia São Tiago em sua Epístola: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26b)! A fé pressupõe a ação! E uma ação deve ser sustentada e motivada pela fé! E a Penitência, por que também faz parte do tripé quaresmal, junto com a Oração e a Caridade? Uma frase do papa Francisco, na Exortação Apostólica Christus Vivit (Cristo Vive), escrita logo após o sínodo sobre a juventude, em 2019, certamente nos ajudará a melhor compreender: “Talvez aqueles de nós que levamos uma vida sem grandes necessidades não saibamos chorar. Certas realidades da vida só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas”. E o papa convidou cada um a se perguntar: “Aprendi eu a chorar, quando vejo uma criança faminta, uma criança drogada pela estrada, uma criança sem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada como escravo pela sociedade? Ou o meu prato não passa de um pranto interesseiro de quem chora porque gostaria de ter algo a mais?”. E, assim, o papa conclui: “Se o pranto não te vem, pede ao Senhor que te conceda derramar lágrimas pelo sofrimento dos outros. Quando souberes chorar, então serás capaz de fazer algo, do fundo do coração, pelos outros” (ChV 76). A Penitência é uma excelente estratégia para aprender a chorar pelo sofrimento alheio!

Não é à toa que o relato das tentações de Jesus no deserto está na Liturgia do 1º Domingo da Quaresma. 40 dias de jejum! Sentiu fome! O tentador, então, aproxima-se e começa a descrição das três grandes tentações, que fazem uma ligação bem estreita com o que o povo de Deus sentiu durante a fuga do Egito em direção à Terra Prometida, guiados por Moisés. Naquela ocasião foram 40 anos de viagem. Aqui são 40 dias. Lá, durante a caminhada, o povo também sentiu fome, resmungou contra Moisés e contra o próprio Deus, foi tentado a se desviar para seguir outros deuses. Aqui, o tentador recorda destas “constantes ameaças” ainda presentes nos dias atuais. Ainda hoje reclamamos, seguimos outros deuses, preferimos satisfazer nossas necessidades pessoais em detrimento a pensar no cuidado do outro, somos egoístas, necessitamos recomeçar no seguimento ao projeto de Deus. Se em Moisés temos o relato da passagem da escravidão à libertação, uma Páscoa, recordada pelo antigo povo de Deus a cada ano com toda a riqueza de símbolos, como veremos especialmente durante a Semana Santa – pães sem fermento e ervas amargas, por exemplo –, agora, em Jesus, temos um “novo Moisés”, um novo profeta, um novo libertador, aquele que nos faz passar do pecado à graça!

Interessante observar a descrição das tentações situada entre o relato do Batismo de Jesus e o início de seu ministério, o anúncio do Reino! É um grande convite a nós, hoje, a cada dia, a vencermos as tentações cotidianas para reafirmar nosso compromisso de batizados, de discípulos missionários de Jesus, de construtores de um mundo com mais vida, dignidade, amor, justiça e paz! Eis a nossa missão, eis a nossa vocação!

Além das tentações, a Liturgia do 1º Domingo da Quaresma apresenta o relato de Gênesis, com Adão e Eva representando a humanidade e se desviando do projeto de Deus; e a carta de São Paulo aos Romanos, que faz uma comparação entre o “erro” de Adão e a “reparação do erro” com Jesus. Ambas as leituras indicam o constante reinício, uma conversão, uma retomada do caminho que trará luz, alegria e vida, superando as trevas, as lágrimas e as mortes!

Que esta Quaresma seja, de fato, um tempo propício para refletir sobre nossa fidelidade ao compromisso de seguir o projeto de Deus, ajudando a transformar os sinais de morte em sinais de vida. Páscoa cotidiana! E, assim, compreendendo essa dinâmica, estaremos empenhados na Campanha da Fraternidade deste ano, em toda a sua riqueza de subsídios, que nos ajudará a “promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito”. E cantaremos, juntos, com alegria e esperança: “Nossa fé não se finda no altar: partilhar brota em nós comunhão. Espalhando as sementes do amor, nossa fé faz de nós mais irmãos!” (Hino da Campanha da Fraternidade 2026).

 

+ Dom Juarez Albino Destro, rcj
Bispo Auxiliar de Porto Alegre