Artigos, Bispos › 14/04/2020

Páscoa e vocações

No encontro com Cristo Ressuscitado, por meio dos evangelizadores, brota a pergunta: “Irmãos o que devemos fazer?” (At 2,37). Foi o que pediram a Pedro, após seu discurso onde anunciou a Ressurreição.  “Ele vive e te quer vivo” (CV, n.1), disse-nos o Papa Francisco. Porque Cristo vive, sabemos que ele nos acompanha sempre. Nunca estamos sozinhos. Ele é fonte de esperança. “Nunca duvides, apesar do que te aconteça na vida. Em qualquer circunstância, és infinitamente amado” (CV, n. 112). Somos valiosos para Deus, somos únicos e irrepetíveis. Nele, como outrora nos apóstolos desanimados, reanima-se nossa vida para uma bela missão. A partir dele e com sua presença, brotam todas as vocações: a vocação matrimonial, a vocação à vida consagrada e a vocação sacerdotal. O Ano Vocacional Diocesano tem em Cristo Ressuscitado e vivo conosco seu centro.

E, porque Ele vive, podemos nos arriscar. O segredo está em que nossa força não vem de nós mesmos, mas dele. “Seja feito segundo a tua Palavra” (Lc 1,26), disse Maria. No dia de nossa decisão, não temos todo o projeto de vida claro em nossas mãos, mas temos a certeza de uma companhia permanente. Por Cristo os namorados queremcasar. Com Ele nos consagramos ao Pai. Nele somos configurados na vida sacerdotal. A vocação não é uma escolha pessoal unicamente, mas acolhida e resposta de uma presença, de um amor envolvente que envia em missão. Vocação tem sua origem na gratuidade! Não é em primeiro lugar o que eu quero ser. Sempre Ele é a razão de ser e do agir. De fato, uma vida fechada a Deus é normalmente mais pobre e, com facilidade, encerra-se no individualismo próprio do nosso tempo. A referência a outro, além de nós mesmos, que dá razão a tudo o que somos e fazemos, ajuda-nos a educarmo-nos para a compaixão, para fazer o bem, para a felicidade que é resultado de uma vida doada, como Jesus nos ensinou.

Na prática, o que muda é que a fé no Cristo Ressuscitado faz ver mais longe e ter coragem para enfrentar os desafios da vida. Claro, se nos acostumamos ao encontro cotidiano, numa vida de oração. Ouvimos Paulo dizer ao amigo Timóteo: “Por este motivo, exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos”(2Tm 1, 6). Uma vida vocacional com Deus não nos isenta dos costumeiros desafios da caminhada. Na verdade, o que diferencia é uma presença constante, na alegria e na tristeza de cada dia da vida. O constante olhar e a busca da identificação da vida com Cristo que deu sua vida na cruz, nos faz relativizar tantos sofrimentos e, também, olhar para além de nós mesmos. Visto sob a cruz do Senhor, vemos tantos irmãos e irmãs que são dignos de nossa misericórdia e acolhida. Nunca um cristão que põe sua vida no Senhor Ressuscitado pode compreender-se de maneira egoísta e isolada. Na verdade, como nos diz nosso Papa, em Cristo somos uma “única família”, interligados nele.

Além de uma companhia inseparável, será também o critério para cada tomada de decisão. Ele, qual centro da vida e de cada vocação, servirá de lugar seguro para saber como agir, como casado, como consagrado e como padre. Recordemos as palavras do Papa, com a pergunta fundamental: “Para quem sou eu? És para Deus, sem dúvida alguma; mas Ele quis que fosses também para os outros, e colocou em ti muitas qualidades, inclinações, dons e carismas que não são para ti, mas para os outros” (CV, n. 286).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta