Artigos, Bispos › 09/09/2019

Podemos cantar a liberdade?

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

 

Ao longo da história, inúmeras interpretações do conceito de liberdade foram construídas. O hino da Independência do Brasil canta a “liberdade no horizonte do Brasil”.  Bela também é a expressão de Fernando Pessoa: “Brincava a criança com um carro de bois! Sentiu-se brincando e disse: eu sou dois!” Nela, o poeta canta a ancoragem da identidade humana no lar da liberdade, conjugando o exterior com a dinâmica interior da situação.

Encanta contemplar a árvore enraizada na terra, o pássaro que voa na tempestade e a fera que habita a floresta. São símbolos da liberdade! Entretanto, somente a identidade humana está no poder de merecer ser livre, através de um longo processo de aprendizagem. A identidade humana é impelida pela liberdade a sair de si, a extravasar-se, a buscar sua realização: a felicidade.

A liberdade é, pois, um atributo essencial da pessoa humana, que lhe permite escolher o próprio destino e de se autodeterminar. Ela pressupõe o exercício da inteligência, como também o progressivo aperfeiçoamento na natureza inferior. Ela é um elemento essencial para a natureza e para a dignidade do ser humano.

Na semana em que o povo brasileiro celebra a independência, é possível cantar a liberdade?

O Brasil é uma nação caracterizada por belezas e riquezas. Os campos têm mais flores, os bosques e as florestas conservam uma biodiversidade extraordinária, o solo é fértil, o subsolo conserva tesouros, os ecossistemas são riquíssimos. Contudo, o país está em segundo lugar no mundo em termos de desigualdade, entre os países democráticos. Falta projeto de nação, políticas públicas consistentes para a superação de tamanha desigualdade.

Celebrar a independência e cantar a liberdade do Brasil implica o compromisso vigoroso de promover o bem comum. Por isso, enquanto houver alguém passando fome, sem terra, sem trabalho, sem teto, sem escola, sem atendimento médico-hospitalar digno, a liberdade não será autêntica.

A esperança dá forças, elã e entusiasmo! Em celebrando a semana da Pátria, nos recordemos que não podemos permitir que nos roubem a esperança.