Artigos, Bispos › 15/07/2022

Qual beleza salvará o mundo?

O humano sempre se encantou pela beleza. Mas nem toda beleza é boa e verdadeira. Num mundo sem beleza, ou mais precisamente, equivocado do sentido do belo, até o bom e o bem perdem sua força. O ser humano permanece perplexo diante das múltiplas opções e se questiona por que não escolher o mal, o prazer sem limites, uma vida sem compromisso e os sentimentos sem responsabilidades.

Apesar de todas as frustrações dos sonhos de um mundo melhor, de uma civilização mais justa e fraterna, de um planeta harmonizado, permanece o desafio de salvar a vida e o globo através da beleza, pois só ela é necessária, como bem alerta Dostoiévski “Sabeis que a humanidade pode fazer pouco dos ingleses, poderá fazer pouco da Alemanha, que nada é mais fácil para ela do que fazer pouco dos russos, que para viver não precisa nem de ciência e nem de pão, mas que apenas a beleza é indispensável porque sem beleza não existirá nada mais a fazer neste  mundo”.

No mundo antigo, por exemplo, um objeto só passava a ser feito em ouro depois de constatada sua utilidade e função. A beleza constitui, portanto, uma das faces da trindade ideal do verdadeiro, do bom e do belo.

Por causa de sua aparência sensível, a beleza também é ambígua. A beleza pode ser frequentemente enganosa e o seu fascínio pode esconder a falta de moral e uma indiferença para com a verdade.  Não é por acaso que o diabo é chamado de Lúcifer, o anjo da luz, que perverteu sua bondade original e tornou-se o anjo das trevas.  E também pode-se dizer que o mal também se reveste de beleza para seduzir. O paradigma mais antigo dessa realidade é o relato bíblico do fruto proibido: “a mulher viu que o fruto da árvore era bom de comer, de agradável aspecto e desejável”. (Gn 3,6). Trata-se da sedução do prazer imediato que brilhou mais do que a distinção entre o bem e o mal. A beleza fascinou o ser humano, usurpou o lugar do Divino, tornou indiferente o bem e a verdade. O que é agradável aos sentidos e estético no mais alto grau, nem sempre é verdadeiro. Não é somente Deus quem se reveste de beleza, o mal lhe imita e torna a beleza profundamente ambígua.

Conta-se que certa feita, numa cidadezinha da Itália, programou-se que uma grande atriz, então considerada a mulher mais bela do mundo, desfilasse em carro aberto nas ruas centrais do vilarejo.  Um operário chega em casa e avisa a família para se preparar para que todos pudessem ver a mulher mais bela do mundo. Seu filho, com pouco mais de sete anos de idade, estranhou aquela afirmação. Quando todos estavam na praça, passou a atriz belíssima. Todos aplaudiram e o pai até colocou o menino sobre os ombros, para que pudesse melhor enxergar a celebridade. Ao ver a atriz, o menino exclamou convicto: “Questa non é la moglie piú bella del mondo!” (Esta não é a mulher mais bela do mundo). Todos insistiam com ele que era sim. Ele reagiu com maior veemência: “La mamma é la piú bella!” (A mamãe é mais bonita). O que é realmente a beleza que salva a vida?

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria