Quaresma, caminho para a Páscoa!
Festas são precedidas por preparação, envolvendo tempo, ambientes e pessoas. Elas possuem um caráter coletivo e de distinta abrangência: familiar, social-comunitária, nacional etc. Organizar e preparar uma festa requer disposição e cooperação, pressupõe empenhar tempo, sair da rotina, engajar-se para que tudo corra bem.
A Páscoa é a maior das festas cristãs. Por isso, durante 40 dias todos são convidados a engajar-se numa dinâmica de preparação. A linguagem comum usa o termo ‘Quaresma’ num sentido negativo, isto é, como sinônimo de tédio, tristeza, ‘falta de alegria’. Ora, a Páscoa é a festa da vida que vence a morte; assim, sua preparação não pode não estar marcada por alegria.
A Quaresma não pode ser reduzida a práticas devocionais de indivíduos piedosos. Isto é expressão de uma tradição eclesial em crise. Segundo a genuína tradição, ela é ‘tempo festivo’ – e formativo! – que conduz à Pascoa. Páscoa é cruz e sepulcro vazios! Tal realidade requer disposição para uma releitura profunda do que significa rezar, fazer penitência, jejuar e dar esmola. Neste sentido, devemos recuperar a dimensão da oração como um “falar distinto”, empenhado em reler a própria existência à luz da experiência do encontro com o grande Outro; da penitência como um “rever, reorganizar a vida”, para alcançar aquela estabilidade denominada virtude; compreender o jejum e a esmola como exercícios para o cultivo da livre relação com os bens, a liberdade e a sexualidade.
Quaresma é tempo de conversão pessoal, comunitária e social. O fenômeno da penitência, para ser valorizado integralmente, não pode perder o seu caráter social. Por isso, todos os anos a Igreja do Brasil propõe um tema com viés social para que o maior número de homens e mulheres de boa vontade possam viver mais intensamente esse Tempo Litúrgico! Para 2026 o tema escolhido é “Fraternidade e Moradia”. Somos, assim, convidados a voltar o nosso olhar para a realidade da moradia no Brasil. Somente assumindo caminhos de autêntica conversão, cooperamos na construção de uma “Terra sem males”.
+ Dom Jaime Cardeal Spengler
Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre e presidente da CNBB e do Celam