Artigos, Bispos › 08/03/2022

Quaresma e Campanha da Fraternidade 2022

A quaresma nos prepara para a Páscoa, celebração central de todo Ano Litúrgico. Por isso o tempo quaresmal é favorável à conversão do nosso coração. É um tempo que nos faz voltar ao que assumimos em nosso batismo, sobretudo o ter-se tornado filho/a de Deus e irmão/ã em Cristo, portanto, comprometidos com o mandamento do amor a Deus e ao próximo. A Campanha da Fraternidade é uma forma de viver a espiritualidade quaresmal, mas esta última não se reduz a ela. O apelo à conversão faz sair do individualismo, rompe com a indiferença, incentiva a vivência da solidariedade e do diálogo como compromisso de amor. O texto-base assim se expressa: “A Campanha da Fraternidade tem como grande objetivo despertar a solidariedade dos fiéis em relação a um problema concreto que envolve a sociedade brasileira, buscando caminhos de solução à luz do Evangelho” (TB 3). Percebemos desta forma que o evangelho tem uma necessária incidência social: “A Páscoa de Jesus Cristo deve nos levar, já nesta vida, a passar de um mundo não fraterno, marcado pelo pecado, nas suas expressões de injustiças, omissões e opressões, para uma sociedade de irmãos” (TB 4). É dentro deste contexto que a Igreja deseja refletir sobre a educação em nosso país, meio indispensável para a construção de um mundo mais justo e fraterno: “Ninguém seja excluído de um caminho educativo integral que humanize, promova a vida e estabeleça relações de proximidade, justiça e paz. A educação é um indispensável serviço à vida. Ela nos ajuda a crescer na vivência do amor, do cuidado e da fraternidade” (TB 6).

O texto-base da Campanha da Fraternidade segue o método escutar-discernir-agir. Ao priorizar o escutar, destaca que esta atitude é bem mais do que ouvir, pois a primeira atitude está na linha da comunicação e a segunda, na linha da informação. Escutar supõe proximidade que pode conduzir ao encontro, criando relações e evitando a tranquila posição de simples espectador: “Escutar é uma condição para falar com sabedoria e ensinar com amor” (TB 27). Importante também é escutar a realidade, pois ela nos fala através dos acontecimentos, os quais devem ser vistos como sinais dos tempos, segundo já afirmava o Concílio Ecumênico Vaticano II. Jesus nos ensina a escutar com os ouvidos e com o coração para perceber a vontade de Deus e os caminhos que podemos escolher.

O aprender faz parte do ser humano, pois somos um constante vir-a-ser. Não é apenas uma capacidade, mas condição da própria humanidade. A pandemia que estamos vivendo exige repensar nossos estilos de vida, nossas relações, a organização da sociedade, inclusive o sentido da nossa existência. Junto com avanços, muitos problemas emergiram com maior evidência, mesmo que já existissem de forma latente: a pobreza, a desigualdade social, novas formas de miséria e exclusão. Estamos num tempo em que precisamos recuperar os projetos de vida, tanto individuais como sociais: “Não se pode fortalecer a ilusão de que é factível pensar e construir um projeto individual de vida sem um projeto de sociedade, um projeto para todos” (TB 38). Necessitamos de um projeto social que coloque no centro a pessoa humana para um desenvolvimento integral e solidário, com cooperação e superação das gritantes desigualdades. Neste sentido afirma o texto-base: “A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda humanidade” (TB 40). A recente crise da pandemia clama por uma visão mais humanista da educação: educar para a comunhão, com relações fraternas na sociedade e com a natureza. Esse espírito precisa envolver todos os âmbitos da educação. Isso não se alcança com um projeto educativo apenas técnico, pragmático e utilitário.

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul