Artigos, ATUALIDADES › 02/06/2020

Sacramento, mas no Isolamento?

Os sacramentos são um sinal sagrado e foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Estes atingem todas as etapas da vida humana. Por sua natureza exigem a “presença” e se manifestam como sinais que muitas vezes implicam “o toque”, não recomendado e até proibido ultimamente. No Batismo há água na fronte, unções e o toque do Éfata, entre outras“atitudes de acolhida”. Na Crisma destaca-se a Imposição das Mãos, a Unção e o toque no rosto. Na Celebração da Eucaristia cumprimentos antes e depois, o abraço da paz e o próprio Cristo a ser pego nas mãos e mastigado, evitando “purismos esdrúxulos” que consideram as mãos indignas, pois Jesus mesmo quis ser “verdadeira comida e verdadeira bebida”. E comida e bebida se pegam com as mãos para quem tem fé madura e adulta e não se comporta como um bebê capaz tão somente de manter a boca aberta e a linguinha de fora. Jesus disse claramente: Tomai e Comei… Tomai e Bebei… “Tomar” é “pegar”, “carregar”, “levar”, como São José: “Toma o menino e sua mãe e vai para a terra do Egito…” (Mt 2,20). A Eucaristia une-se aos sacramentos de Cura, que implicam impor as mãos, sendo até possível a mão na cabeça (confissão e unção dos enfermos) e a unção nas mãos ou outra parte do corpo para um enfermo. Repete-se “o toque”, tão visível, no sacramento da Ordem: a Imposição das mãos, o toque do Bispo, a mão dos presbíteros, a paramentação, o abraço fraterno dos que estão no mesmo grau da ordem, dos familiares, dos amigo… Há muitos sinais de proximidade física na Celebração e Rituais do sacramentos. Isso muito se expressa, por exemplo, no sacramento do matrimônio. Este recorda a aliança entre Deus e a humanidade, entre Cristo e a Igreja. No Matrimônio há mãos dadas no consentimento, troca de alianças,  beijo dos noivos, abraços dos convidados… De fato faz falta ao cristão católico todos os gestos humanos ao quais se está acostumado.

Durante o tempo de isolamento exigido pela pandemia do Covid-19, o Romano Pontífice exortou a fugir da tentação de “virtualizar” os sacramentos e também as práticas comunitárias da fé. Em sua homilia do dia 17 de abril de 2020, o Papa Francisco explicou que o culto online não deve se tornar a norma a ser adotada fora de uma situação particular ou emergencial. Sem opor-se à comunicação digital, ele causa reflexão à compreensão da complementariedade do universo digital e o presencial. O Catecismo da Igreja Católica fala de uma certa semelhança entre as etapas da vida natural e as da vida espiritual (n. 1210). Os sacramentos são “toque e presença” que acompanham o desenvolvimento da pessoa humana, e “a Eucaristia ocupa um lugar único enquanto ‘sacramento dos sacramentos’: todos os demais sacramentos estão ordenados a este como a seu fim” (n. 1211).A doutrina da Igreja diz que Eucaristia é “a fonte e o ápice da vida da fé” (SacrossanctumConcilium). As missas pelos meios de comunicação e redes sociais são interessantes em situações de emergência para manter a família cristã unida (veja-se como favorece grupos específicos de cristãos, como os doentes que não podem sair de suas casas e ainda porções menores e perseguidas expostas a perigo, como por exemplo em ambientes de perseguição e pouca presença cristã). A Eucaristia é presença real e quem a recebe não pode ser mera presença virtual na vida do próximo. O que fazer em dia de Pandemia?

Uma grande lição da “saudade dos sacramentos” diante do perigo de contaminação de si e do outro poderá ser a de ressaltar a necessidade de um cristão orar e olhar pelo outro, aumentando o desejo de conhecer Jesus Cristo e reconhecê-lo no próximo. Uma coisa é olhar de longe, outra é realmente enxergar e partir, levantar o espírito e inclinar o corpo para tocar o Senhor dentro da normalidade: eis a alteridade! A privação do “toque e do convívio” sejam como que uma penitência para valorizar o encontro e a familiaridade. E, passada a provação, a nostalgia dê lugar a abraços, o isolamento seja suplantado pelo ágape fraterno e os egoísmos reconhecidos na reflexão do isolamento dêem lugar à partilha:“Esta familiaridade dos cristãos com o Senhor é sempre comunitária. Sim, é íntima, pessoal, mas  em comunidade. Uma familiaridade sem comunidade, sem Pão, sem Igreja, sem povo, sem sacramentos, é perigosa. Pode-se tornar uma familiaridade – digamos – gnóstica, uma familiaridade só para mim, desligada do povo de Deus. A familiaridade dos apóstolos com o Senhor foi sempre comunitária, sempre à mesa, um sinal da comunidade. Sempre com o Sacramento, com o Pão” (Homilia na Casa Santa Marta, 17.04.2020).

Gestos concretos surgem de quem quer encontrar o coração de Deus, “e aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos Céu, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12,50). É possível dar testemunho, ser sinal, tocar e se deixar tocar. Em vez de receber? SER! A pandemia é só um momento, e o cristão pode SER SACRAMENTO, mesmo NO ISOLAMENTO.

Pe. Fabiano Dias Pinto – Reitor do Seminário Rainha dos Apóstolos Curitiba|PR