Artigos, Filosóficos › 26/08/2019

Sejamos Guardiões da Criação

Gabriel Guilherme Frigo[1]

 

Em uma nota e vídeo oficiais emitidos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB, fez o seguinte apelo, para todas as pessoas de boa vontade, “sejamos guardiões da Criação”. Nosso país sente as dores da exploração desmedida e desprotegida, e isto tem se mostrado cada dia mais evidente. A crise ambiental pela qual estamos passando requer medidas adequadas e urgentes, como diz o texto, das autoridades competentes, para que os impactos sejam diminuídos. Não podemos deixar nossa amada pátria definhar nas mãos exploradoras que destoem o que as divinas mãos criaram.  É preciso que cuidemos da nossa Casa Comum, do meio ambiente. Não se trata mais de um apelo, trata-se, mais do que nunca, de um imperativo.

O cuidado da casa comum é-nos um imperativo moral. Não é algo que podemos mais negligenciar ou fingir que não nos envolve e/ou que não somos responsáveis. O planeta está aos nossos cuidados, não somos seus donos, mas, antes disso, somos os seus protetores. Somos os “guardiões da Criação”. Contudo, infelizmente, estamos falhando miseravelmente com a nossa missão. Não culpemos partido A ou B, a culpa é nossa, a culpa é do ser humano ganancioso e pretencioso de tudo dominar e tudo possuir. Estamos destruindo nossa casa comum, estamos destruindo o bem mais básico e mais comum que pode haver, estamos destruindo nosso meio ambiente.

O clamor de cuidado pelo planeta não pode ser direcionado para alguns poucos grupos, deve sê-lo para toda a humanidade. Se tomarmos em conta o primeiro princípio da lei natural, “o bem deve ser feito e procurado, e o mal, evitado” (S. Th. I-II, q. XCIV, a. II), então é evidente que todos somos chamados a prática do bem, uma vez que a lei natural é a mesma e igual para todos os seres racionais. Ademais, “o bem em é aquilo que todas as coisas desejam” (S. Th. I-II, q. XCIV, a. II). Portanto, sendo o ser humano um ser de razão, ele é naturalmente direcionado a buscar o bem e evitar o mal. Alguns poderão questionar: “qual bem deve ser buscado?” Para Tomás de Aquino a resposta é clara, em primeiro lugar devemos buscar a Deus, sumo e eterno Bem. Todavia, há outros bens que devemos buscar e entre estes bens secundários o maior deles é o bem da comunidade, o bem comum. Ora, pois, quais são, na sociedade contemporânea, os bens mais comuns e gerais que devem ser de acesso a todas a pessoas? Segundo o papa Francisco, entre os bens comuns da humanidade, está o meio ambiente. Ele afirma que “O meio ambiente é um bem coletivo [comum], patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos” (Laudato Si, nº 95).

Se tratando do bem comum o papa João XXIII, na sua Carta Encíclica Mater et Magistra (nº 65) caracteriza-o como sendo “o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem nos homens o desenvolvimento integral da personalidade”. Sem dúvidas fica claro que o bem comum não é só o bem material, mas é um conjuntos de bens – materiais, intelectuais, espirituais, etc. – que perpassam toda a dimensão do ser humano, levando-o a verdadeira felicidade. Da mesma maneira, o Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, como que, resumiu o significado prático de bonum commune, encontrado no Doutor Angélico, mas indo, pode-se dizer, além de Tomás de Aquino. Afirmam os Padres Conciliares que o bem comum

 

“[…] aumenta a consciência da eminente dignidade da pessoa humana, por ser superior a todas as coisas e os seus direitos e deveres serem universais e invioláveis. É necessário, portanto, tornar acessíveis ao homem todas coisas de que necessita para levar uma vida verdadeiramente humana: alimentos, vestuário, casa, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à proteção de sua vida e à justa liberdade mesmo em matéria religiosa”.

 

Seguindo o que disse o papa João XXIII, poderíamos dizer que entre as muitas coisas que favorecem o desenvolvimento integral da pessoa humana está o meio ambiente. Aliás, sem este não é possível qualquer desenvolvimento, pelo contrário, só há regresso. Sendo assim, entre os bens da sociedade, ou entre o bem comum, está o meio ambiente como sendo a casa comum de toda a Criação. Acertadamente, o papa Francisco, na Carta Encíclica Laudato Si, afirma que “O clima [e, poderíamos acrescentar, o meio ambiente como um todo] é um bem comum, um bem de todos e para todos” (nº 23), e, mais adiante ele continua afirmando que “crente e não crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujo os frutos devem beneficiar a todos” (nº 93). De tal maneira que faz-se imprescindível, como que por meio do axioma da lei natural, o seu cuidado e a sua proteção. Portanto, o cuidado para com a casa comum apresenta-se como um imperativo de valor moral. Cuidar do planeta é buscar o bem comum de toda a humanidade e, sobretudo, de toda a Criação.

Referências Bibliográficas:

CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Nota oficial: Levante a voz pela Amazônia. Brasília-DF, 23 de agosto de 2019. Disponível em: <http://www.cnbb.org.br/levante-a-voz-pela-amazonia-pede-cnbb-em-nota/>. Acessado em: 23 de agosto de 2019.

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. In: Documentos do Concílio Vaticano II (1962 – 1965). Organização geral: Lourenço Costa. Trad. Tipografia Poliglota Vaticana. São Paulo: Paulus, 1997.

FRANCISCO (Jorge Mario Bergoglio). Laudato Si. São Paulo: Paulus, 2015. (Documentos do Magistério).

JOÃO XXIII (Angelo Giuseppe Roncalli). Mater et Magistra. In: Documentos de João XXIII. Trad. Tipografia Poliglota Vaticana. São Paulo: Paulus, 1998.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. Organização de Rovílio Costa e Luis Alberto De Boni. 2. ed. Porto Alegre: EST, Sulina; Caxias do Sul: EDUCS, 1980.

_______. Suma Teológica. Coordenação Geral da Edição por Carlos Josaphat Pinto de Oliveira, OP. Introdução e notas: Thomas d’Aquin – Somme Théologique, Les Éditions du Cerf, Paris, 1984. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

[1] Graduado em Filosofia pela Universidade em Caxias do Sul (UCS), com monografia sobre o pensamento político na obra de Tomás de Aquino, intitulado “Breves elucidações dos conceitos de Civitas e Lex no pensamento político de Tomás de Aquino. Atualmente é mestrando do PPG-Filosofia da mesma universidade, com bolsa CAPES, desenvolvendo uma pesquisa sobre os conceitos justo e justiça em Tomás de Aquino. Tem particular interesse em temas relacionados a filosofia e teologia medieval. E-mail: gabrielfrigo@live.com