Ser cristão e ser cidadão não podem ser vistos de maneira separada

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Na caminhada de fé do povo de Israel, Deus manifestou-se através da palavra, e ela chegou no coração e na vida do povo pela boca dos profetas. Através da palavra, Deus não só se revelou ao seu povo, mas acompanhou, ao longo da história, o peregrinar deste povo, suas lutas, suas vitórias, suas angústias, suas dores na escravidão e no exílio. Pela palavra alimentou a esperança, consolou na aflição, aliviou os sofrimentos, expressou compaixão, misericórdia, amor e ternura de Pai pelo seu povo.

Como humanidade, vivemos uma mudança de época e trazemos presente no dia a dia os sinais de uma sociedade cansada e, muitas vezes, indiferente em relação aos valores que moldaram a família, a sociedade e as instituições por gerações. “Em alguns lugares, se produziu uma «desertificação» espiritual, fruto do projeto de sociedades que querem construir sem Deus ou que destroem as suas raízes cristãs. E a própria família ou o lugar de trabalho podem ser também o tal ambiente árido, onde há que conservar a fé e procurar irradiá-la. Mas é precisamente a partir da experiência deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua importância vital para nós, homens e mulheres. No deserto, é possível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança” (Evangelii Gaudium, 86).

A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium nos recorda que “o Evangelho nos convida sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros” (Evangelii Gaudium, 87).

A minha fé deve ser parte da minha vida, do meu agir como cristão e cidadão. Quando o meu agir não leva em consideração a minha fé, significa que ela não está no meu coração, não faz parte da minha vida. Tenho o rótulo de um produto, mas não os valores do Evangelho, anunciados pelo Senhor Jesus.

O cristão expressa o seu ser cidadão na comunidade, na família, no mundo do trabalho, nas opções éticas e morais, na sociedade política e civil. Consciente dos valores do Evangelho, procura dar sua contribuição pessoal e profissional para a transformação da sociedade, com perspectivas de novos horizontes. Vive sua cidadania no mundo, tendo consciência de que “é a pessoa que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada”.

O caminho da conversão passa pelo coração, que acolhe os valores do Evangelho e os manifesta através da vida, como cristão e cidadão, na família e na sociedade. A participação na política, de forma ética, é uma forma do cristão contribuir na construção de uma sociedade que gere a inclusão e não a indiferença. “Não é preciso sair da Igreja para ir ao mundo, como não é preciso sair do mundo para entrar e viver na Igreja”.

+ Dom José Gislon, OFMCap.
Bispo Diocesano de Caxias do Sul