Artigos, ATUALIDADES › 11/05/2020

Ser Santo é viver em Deus, no Deus de Jesus Cristo

A meta mais alta e único caminho para um cristão é buscar a santidade, não há outra opção; ou ser santo ou ser corrupto. Mas, que é esta santidade? A adesão de fé na pessoa de Jesus Cristo, de modo a imitá-lo na caridade, no sentir e no buscar viver em comunhão com Deus e os irmãos. A Santidade é para um cristão um autoconhecimento, pois, a verdade de si é uma resposta existencial: Somos o que Deus criou por amor, para amar. Essa busca é tanto reconhecer em nós os traços do Eterno, quando reconhecer fora, onde estão estes mesmos sinais de bondade, verdade, beleza e harmonia. A figura do mal é tudo quanto possa romper essa senda, por isso não é moral ao cristão compactuar, mesmo que, e sobretudo se for em benefício próprio, com qualquer sinal de morte que ofenda a si mesmo, a seus semelhantes e desdenhe do amor de Deus.

A inautenticidade, ou o pecado, é qualquer coisa entre recusar conhecer-se em Deus ou encantar-se com aparências e repetições de atitudes que nos anestesiam na virtude de se deixar descobrir profundamente quem somos. É o vício do encanto com o que passa: poder, status, prazer, dinheiro…  em certa medida, necessários, em excesso, semeadores da dor, da solidão e da morte.

A santidade é um caráter. Se para os cristãos está ligada a um modo de vida orientado pela fé traduzido sempre na mais perfeita acepção do que chamamos de amor, para quem não é cristão não deixa de ser esta mesma acepção. A santidade é um traço primordial de qualquer humano que faça o bem. E, ainda que não confesse a fé, esta disposição por evitar fazer mal ao semelhante supera o instinto biológico de sobrevivência e autoconservação. Muito nos perguntamos do por que fazemos o mal, mas, e então, por que também fazemos o bem? Se não for por inspiração natural dada a nós por um Bem Maior e eterno que nos deixou essa Lei gravada. Lei Natural. Lei esta que as religiões de modo geral dispendem suas crenças e cultuam seus deuses; não se trata de entrar em choque com o cristianismo e afirmar que todas as religiões são iguais, mas, que todas as religiões contém a semente da única e mesma Palavra revelada em Jesus, e que todas as religiões testemunham o anseio do homem por Deus. Por isso a santidade cristã está além de uma ética religiosa, ou humanista, ela não se dobra ao sabor do tempo e da cultura humana mas, é uma convicção de que a encarnação, paixão de cruz e ressurreição de Cristo são a última e verdadeira palavra de Deus à humanidade.

A cruz mudou o mundo ontologicamente, antes não havia esperança além da morte, esta era, ou um eterno retorno ou um fim inevitável, e a imortalidade um legado material; em Cristo a vida verdadeira é eterna, e este mundo passageiro. Esta profissão de fé não é um desdém pelo mundo, pelo contrário, é a afirmação de sua vital importância, pois, se no hoje, não vivermos almejando o que não se corrói, o que resta é o nada, o tédio, a solidão a divisão e o pecado.

É a perca do sentido de ressurreição que atormenta o mundo, por que este não crê na forca redentora da cruz, e ao evitar viver pelo que é eterno se engasga com o que é fugaz, e ao ver o mal que produz se desespera numa espiral de autoengano motivada pelo materialismo, pelo consumismo, um humanismo sem Deus de ideologias que colonizam o espírito e secam a comunhão humana. O caminho da santidade passa pelo desejo de romper com o pecado que permitimos tomar nosso Eu.

É preciso uma santidade para cuidar dos doentes, dos pobres, para contrair laços amorosos e formar uma família, para amar a terra, para não se abater pela maldade que ora também criamos, ora nos atinge pela nossa limitada condição humana a mercê da força da natureza, é preciso coragem para se manter são num mundo doente, é um esforço heroico manter-se equilibrado diante de tantos julgamentos por aquilo que fazemos do nosso eu, com nossas escolhas, quedas, acertos e consequências.

Santidade é a luta de cada homem e mulher em cada tempo e lugar para terem suas vidas e a daqueles que amam, vividas com dignidade. Jesus nos mostrou não outra coisa que esta santidade humana primordial pode ser alçada no ápice de toda dor e sofrimento que possa nos abater, e nos mostrou também, que ser santo é, na origem do termo hebraico KADOSH, separar-se da estrutura do Mal e dos erros do mundo para buscar Deus e recordar a este sua vocação divina.

A vida de Jesus é a regra para os cristãos, e a luz e esperança também para que não é institucionalmente ligado a fé Nele. Por que Ele sendo homem se fez semelhante a todos, sem exceção, e é pela semelhança Dele conosco que nenhuma pessoa pode ser deixada de lado na história e a margem da dignidade, ou que não possa ser capaz de viver o Bem. Não fazemos o bem que não recebemos, mas fazer o bem é não esperar receber, e o bem que recebemos é a doação do Infinito em nossa consciência que se aprimorou para discernir entre o que Divino e o que não é. Nossa liberdade pode negar Deus, mas não sua existência e as consequências de não escutar o imperativo “Não matarás” expresso em cada rosto humano.

Deus não é uma ideia acima de todas as outras e acima de todos, mas uma pessoa a quem reconhecemos por Jesus, e o que dele sabemos nos compromete a renunciar com a tentação de moldar um Deus pessoal que justifique nossas ações quando estas não visam o bem e nem a paz. Deus ouviu o clamor de seu povo e desceu para liberta-lo das trevas do pecado e da morte. Cristo ao se encarnar, não permanece acima, mas desce para junto dos homens, e se posta preferencialmente ao lado dos pequenos. Diante dos nossos contra testemunhos poderíamos no perguntar se o nosso Deus de cristãos tem sido realmente o Deus de Jesus Cristo; escolhamos a vida, de sua concepção, desenvolvimento digno e até seu termino natural. Numa sociedade que se quer dizer cristã, todos tem seu lugar.

Foi a renúncia ao Deus de Jesus Cristo que produziu morte e hoje produz alienação e fanatismo em nome de Deus, é a tentação do homem fazer-se Deus (e agora posso abranger outras religiões), que produziu também projetos de poder e opressão morticida. É somente um Deus encarnado com sua face e mandamento revelado na ótica do amor a todos que impede tais atrocidades advindas do desejo do homem ser onipotente, não nos cabe manipular a Palavra, mas, zelar pela sua integridade numa vida coerente, e a coerência da vida cristã está em viver o compromisso com as opções de Jesus que o sermão das bem-aventuranças e as obras de misericórdia expressam de forma singular.

Daniel Chagas – Seminarista da Teologia de Cruz Alta