Simplicidade de Viver

Precisamos retomar a simplicidade. Com o tempo, tudo vai se tornando sofisticado, porém não mais saboroso. Sou do tempo em que muitas casas não tinham piso, apenas chão batido. Entre a poeira e o barro, criavam-se as gerações nos arredores de casa, cuidados por todos.

Muitos não tinham luz elétrica. Em minha família, a televisão apareceu bem mais tarde, quando eu já era jovem. Tínhamos outras coisas para fazer e tudo parecia encantar-nos. Também foi um tempo de mais sobriedade. A comida não era tão farta nem tão variada como hoje, mas, com certeza, tinha muito mais gosto. Aquele pão que mamãe fazia, espalhando o aroma por toda a casa, era um pão abençoado pelas mãos de quem nos amava.

Era também um tempo de rigidez: adultos sérios, professores exigentes. Havia reverência para com os mais velhos; sabia-se viver em sociedade. Embora tenha crescido numa cidade de maioria absoluta de alemães descrentes, eu, que sou de origem lusa, jamais me senti ignorado ou menosprezado por meus colegas. Agradeço a Deus todos os dias pela época de ouro que vivi na infância e adolescência.

Hoje, muitas coisas mudaram. Nem tudo é ruim, mas falta proximidade, presença e acompanhamento dos adultos às novas gerações. Falta-nos, igualmente, paciência para escutar os mais novos e aprender com eles. A agenda está lotada de compromissos sem fim. O mais importante, porém, acaba sendo relegado com muitas desculpas que “não colam”.

A escola talvez ainda seja um dos espaços capazes de reencantar a vida e promover a escuta desses tão lindos frutos das famílias, que confiam em educadores e educadoras para oferecer-lhes afeto, respeito e mostrar-lhes caminhos possíveis de uma vida com sentido — uma vida que valha a pena viver.

Ao iniciarmos este ano letivo, não esqueçamos o principal: cuidar da vida e promovê-la sempre que possível. Além disso, dediquemo-nos a ensinar o “bem viver”, muito mais importante do que o “viver bem”. A vida simples sempre é mais saborosa. Como diz a velha canção: “Eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é bonita e é bonita”.

Aos colegas que gastam sua vida pela educação, um feliz ano, com luz e paz. Que nossa sociedade saiba respeitar nossas escolas — santuários de vida — e que os educadores sejam ouvidos e apreciados pelo bem enorme que fazem à civilização. Vamos em frente! Jesus, pedagogo do amor, acompanhe e abençoe a todos.

Prof. Dr. Pe. Rogério Ferraz de Andrade
Coordenador da Comissão Episcopal da Educação e Cultura – CNBB Sul 3