Artigos, Bispos › 16/10/2020

Somos todos irmãos

A cidade de Assis, na Itália, tornou-se uma referência para iniciativas envolvendo o diálogo inter-religioso, e temas como o cuidado com a Casa Comum (a natureza), a paz e a fraternidade universal.

No último dia 3 de outubro, o Papa Francisco assinou, junto ao túmulo de São Francisco de Assis, sua terceira Carta Encíclica, intitulada “Fratelli Tutti”, dedicada à fraternidade e à amizade social. Trata-se de um texto denso, e que aborda temas importantes a respeito de cultura, política, economia, vida em sociedade, que certamente preocupam mulheres e homens de boa vontade, desejosos de colaborar para deixar o mundo um pouco melhor para as futuras gerações.

No início do texto, o Papa expressa a motivação que o levou a escrever a Carta Encíclica: “As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupações. (…) Embora a tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade.”

A linguagem usada é simples, direta, despojada, quase coloquial, chegando a surpreender. Há também de se destacar a lucidez de Francisco. Frente a uma realidade histórica, marcada por variadas crises que atingem a todos indistintamente, são oferecidas indicações preciosas para tantos que acreditam na possibilidade de um mundo mais justo e fraterno.

Diante da tendência recente da imposição de um pensamento único a orientar decisões governamentais, surge a indicação de que é necessário e possível alargar o olhar, para tecer uma nova cultura política, econômica, social e cultural, pois tudo está interligado e somos todos irmãos. Para levar a termo a tarefa, urge resgatar princípios antropológicos e éticos, pautados pela necessidade de promover oportunidades de diálogo e encontro entre homens e mulheres sabedores de que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (V. de Moraes), pois este é o único caminho viável para a construção da paz, justiça e fraternidade entre os povos e nações.

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da CNBB