Artigos, Bispos › 25/06/2021

Talitá cum

Um dia perguntaram a Paul Claudel (1868 + 1955), diplomata, dramaturgo e poeta francês, que ficara cego, qual seria agora o sentido da sua vida. Respondeu: “Não tenho mais nada. Porém, me restaram os joelhos para rezar”.

Há momentos em que vida foge das mãos por causa de doenças incuráveis, crônicas ou quando a morte leva pessoas amadas e próximas. Outros momentos simplesmente a alegria de viver vai se esvaindo por outros motivos. Entra-se num túnel de tristeza e desencorajamento ou até se chega ao desespero. Num contexto similar desenvolve-se a liturgia dominical, a partir do texto bíblico de Marcos 5,21-43. Um pai de nome Jairo, força passagem entre a multidão e cai aos pés Jesus, e faz um pedido desesperado: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” No meio da multidão que comprimia Jesus, tinha outra mulher desesperada que há doze anos tinha uma hemorragia, mesmo tentando de tudo não se curava. Seu desejo era: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”.

A atitude de Jesus nos dois episódios, que são relatados simultaneamente, orienta-nos como devem ser tratadas as pessoas nestas situações sofridas. Jesus inclina-se sobre o sofrimento humano e cura o corpo, mas também cura o coração, dá a salvação e pede a fé n’Ele.

Diante da solicitação desesperada de Jairo, mesmo uma multidão se comprimindo ao seu redor, Jesus se coloca em movimento em direção da menina gravemente doente. Porém no caminho, é tocado pela mulher desesperada e que imediatamente fica curada da hemorragia. Ao chegar na casa de Jairo, vai ao quarto da menina de 12 anos, pegou na mão dela e disse: “Talitá Cum” – que quer dizer: “Menina, levanta-te”. Temos, nestas ações a cura do corpo.

Jesus não ficou satisfeito apenas em curar o corpo. Quer ver, encontrar-se, falar, dialogar com as curadas. Quer vê-las bem. Quer saber quem o tinha tocado propositadamente, mesmo que uma multidão o comprimisse. “Quem tocou a minha roupa”, pergunta. O Evangelho descreve que a mulher “cheia de medo e tremendo … veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade”. A mulher que vivia nesta situação desesperadora não poderia ser simplesmente curada da hemorragia, mas precisa ser curada na sua totalidade. Havia necessidade de lhe devolver a dignidade, tirar-lhe o medo, incluí-la na sociedade. É o que revela a conclusão do encontro pessoal com Cristo. “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada dessa doença”. A menina curada levantou-se imediatamente e começou a andar. Jesus pede para alimentá-la.

A atitude de Jesus em relação ao sofrimento nos leva a pensar em quantos atuam cotidianamente com os doentes, em especial os médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, os agentes de saúde, cuidadores, etc. Também nos faz pensar naqueles que prestam a assistência religiosa nos hospitais e outros ambientes de cura. “Eles são ‘reservas de amor’, que dão serenidade e esperança aos sofredores… Com efeito, trata-se de seres humanos, que precisam de humanidade e da atenção do coração. ‘Por isso, para tais agentes além da preparação profissional, requer-se também, e sobretudo, a formação do coração: é preciso leva-los àquele encontro com Deus em Cristo que neles suscite o amor e abre o seu íntimo ao outro” (Bento XVI – Deus caritas est nº31).

As duas narrações de cura são um convite para superar uma visão puramente horizontal e materialista da vida. Ou simplesmente preocupar-se com a cura física. Assim como Jairo e a mulher, pede-se a Deus muitas curas de problemas, de necessidades concretas, e é justo. Com a mesma insistência deve-se pedir uma fé cada vez mais firme, uma renovação da vida espiritual, uma confiança firme no amor de Deus e na sua providência que não nos abandona.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo