Artigos, ATUALIDADES › 24/06/2022

Um mundo sem coração e o coração nas mãos

Madre Teresa de Calcutá incomodava: “as mãos que ajudam são mais sagradas do que os lábios que rezam”. Uma sintonia fina entre o falar e o fazer deve expressar um dos tesouros da prática de Jesus que é a coerência. Essa é a primeira tarefa da fé. Pouco espetáculo e muita fidelidade aos irmãos. Ir ao encontro, tocar, amar, deixar-se amar, confiar, abraçar, chorar as dores dos empobrecidos e estar com eles na luta pela vida. O papa Francisco sempre se fez amigo e companheiro das pessoas, ontem em Buenos Aires e hoje em Roma, Faixa de Gaza, Síria, Paris, Moscou, Pequim ou Lampedusa. Dizia o papa Francisco em 26 de março de 2013: “Viver a Semana Santa seguindo a Jesus quer dizer aprender a sair de nós mesmos, ir ao encontro dos outros, ir à periferia, sermos os primeiros a nos movermos até nossos irmãos, principalmente àqueles que estão mais longe, que estão esquecidos, que necessitam de compreensão, consolo e ajuda”.

Os jornais revelam um mundo em conflito dos que pretendem o controle dos mercados, a prioridade das mercadorias destruindo nações inteiras na voracidade capitalista. A presença norte-americana movida pelo petróleo e pela venda de armas massacra o planeta. O crescimento da China se fez à custa da expropriação de matérias-primas da África e doo trabalho escravo de milhões de asiáticos. O governo fantoche da Síria usado pela Rússia mostra como povos são manipulados. Três grandes impérios sem coração mantém o Planeta doente produzindo um bilhão de refugiados que buscam terra, comida e liberdade. A rica Europa, separada por novos muros e governos de ultradireita, não quer ouvir o Evangelho de Cristo, fechada na xenofobia e na discriminação.

A falta de misericórdia se expressa na situação de fome que dizima milhares no Haiti, Uganda, Síria, Congo e Sudão. Há países ricos em bancarrota fiscal como a Grécia, Chipre, Espanha, Portugal e Irlanda. Muitos creem que o papa Francisco é o único estadista de paz que pode nos salvar desta catástrofe humanitária. Sabemos que Francisco não se pretende messiânico nem é afeito ao poder, pois conhecemos seu amor em gestos pelos últimos e desprezados. Esse amor preferencial do coração de Jesus mostra que “assim como o comunismo caiu por suas contradições internas, este liberalismo também vai cair por suas contradições internas”, disse o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio. Ele adverte que “não devemos nos resignar a aceitar passivamente a tirania do econômico. A tarefa não deve reduzir-se a que as contas fechem para tranquilizar os mercados”.

Criar novas palavras para tempos novos, anunciando o eterno amor de Deus pela humanidade, é o desafio catequético mais exigente do papa Francisco. Propor eternidade em tempo de fugacidades. Propor fidelidade e amor em tempos de liquefação das pessoas e das sociedades, como mostra a obra de Zigmunt Baumann. Parafraseando o Apóstolo Paulo, o papa Francisco precisa ser grego com os gregos, romano com os romanos, pobre com os pobres, cuidador entre ecologistas, jovem entre jovens e, migrante entre refugiados.

A fé cristã exercita-se na prática da sabedoria e do discernimento. Isso faz do cristão uma pessoa atenta às novas conquistas da ciência e do pensamento literário, mesmo daqueles que não tem fé ou que a negam. O verdadeiro cristão luta com todas suas forças contra o sofrimento e tenta aliviá-lo com os recursos da ciência e da tecnologia disponíveis sem ferir os preceitos éticos fundamentais. Quer ser humano plenamente e defender a vida e toda vida da concepção até a morte natural. Assim evita caminhos vazios e nocivos. Assume a missão inédita da fé que é falar de ressurreição repensando os conceitos e experimentando o milagre. Assumo a expressão do padre Adolphé Gesché: “a fé hoje não é uma ilusão, como dizia Sigmund Freud, e sim uma alusão”. Alusão a algo discreto que revelará o âmago de nós mesmos e neste íntimo de cada um de nós essa fé desvelará o Deus vivo e verdadeiro.

Essa é a grande tarefa missionária para nosso tempo: viver a fé que desperte esse eco adormecido dentro da cada pessoa. Ouvir nosso ser profundo que fala de amor e quer ser amado. E dizer isso aos que sofrem e que tem negada a sua humanidade. Quem tem fé enxerga em cada pessoa uma revelação única do rosto de Cristo. Cada pessoa possui inscrita em seu coração o plano de Deus para ela e para os que a conhecem. Abrir estes livros pessoais e decifrá-los é hoje a imensa tarefa da Igreja, do papa Francisco e de cada cristão católico ou evangélico, para que possamos celebrar as alegrias e as tristezas, os sofrimentos e as esperanças na mesa da Eucaristia. Como bem quis o inesquecível Papa Paulo VI ao proclamar que a Igreja deve ser perita em humanidade! Assim podemos ainda cantar mais forte: “Quero que o meu coração, seja tão cheio de paz/ Que não se sinta capaz, de sentir ódio ou rancor/ Quero que a minha oração/possa me amadurecer/ leve-me a compreender/ as consequências do amor”.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior –  PUC-SP